sábado, 7 de dezembro de 2019

A escolha Cultura/revólver já foi feita no Brasil

A frase

Luis Fernando Verissimo

Há frases que sobrevivem aos seus autores – em muitos casos porque são atribuídas a autores errados. Nem o Humphrey Bogart nem a Ingrid Bergman pediram ao pianista Sam que tocasse As Time Goes By outra vez, no Casablanca, o que não impediu que fosse a música mais lembrada do filme. Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Hitler, deixou uma penca de frases para a posteridade. Estranhamente, a autenticidade das suas citações está só agora sendo debatida. O verdadeiro autor da tirada “sempre que ouço falar em cultura, pego o meu revólver” seria não o magro Goebbels, mas o gordo Hermann Goring, que disputava com Goebbels um lugar no coração do Führer. E agora surge outra revelação: a frase faria parte de uma peça intitulada Schlageter, lançada em Berlim em 1933. Enfim o autor.

Goebbels nunca reivindicou a autoria da frase famosa porque, de certo, achava que merecia todas as glórias de uma boa sacada, mesmo as emprestadas. Também, como intelectual do regime e atento a tudo que desmoronava à sua volta, inclusive o sacrifício dos seus próprios filhos e o seu suicídio no bunker de Hitler, Goebbels deve ter visto seu final como um misto de castigo pelos seus crimes e triunfalismo trágico pela sua fidelidade. Se todas as vezes que ouvisse falar em cultura tivesse sido mais rápido no gatilho, talvez o delírio nazista tivesse durado mais um pouco, ou menos. Para as crianças no bunker não faria diferença.

A frase de Goebbels que não era de Goebbels teve várias versões. Groucho Marx: “Sempre que ouço alguém falar em cultura, pego a minha carteira”. Possível outra versão da frase do Groucho: “Sempre que ouço falar em cultura, escondo minha carteira”. No Brasil do governo Bolsonaro, a escolha Cultura/revólver já foi feita.

Passatempo


Todo o passado que vem por aí


Luis Eduardo Agualusa
Em vez de discutir a esfericidade do globo, preferia debater outros assuntos, igualmente em voga na Idade Média
Cada vez que recorro ao Google para uma pesquisa qualquer, penso na falta que faz uma ferramenta que nos permita consultar as próximas 24 horas, com a mesma facilidade com que consultamos as últimas.

Por outro lado, morro de medo de que ao pesquisar, por exemplo, “Governo Bolsonaro, próximos seis meses”, os resultados me atirem para um passado remoto, digamos, uns cinco séculos atrás.

Recentemente, ao passar os olhos pelo Facebook, fui surpreendido por um debate animado, tendo como foco as declarações de um membro do atual governo brasileiro, que defende o terraplanismo. Pessoas inteligentes, sérias e respeitáveis afadigavam-se, listando argumentos para justificar a sua convicção de que vivemos num planeta esférico.

Daqui a pouco estaremos discutindo, com idêntico esforço e seriedade, se os negros têm alma. Com mais dois ou três anos de governo Bolsonaro, haverá acadêmicos defendendo teses nas universidades brasileiras sobre a justiça e a rentabilidade do sistema escravocrata, e as melhores opções para o reconstituir, juntamente com a monarquia. Generais e almirantes estudarão a possibilidade de enviar uma armada para libertar Luanda dos angolanos, relançando a rentável e proveitosa importação de mão de obra africana, não remunerada.

Os mesmos políticos começarão a defender o regresso da Santa Inquisição, desta vez não já subordinada à Igreja Católica, mas à IURD, para perseguir comunistas, maconheiros, os hereges católicos papistas, os satanistas do candomblé e da macumba, e toda essa colorida trupe de transviados sexuais, que Lula e o PT tiraram dos armários.

Lula, aliás, será dos primeiros a arder na pira. Muitos se seguirão, incluindo, suspeito, a generalidade dos escritores brasileiros (e quase todos os colunistas deste jornal).

Em vez de discutir a esfericidade do globo, que me parece um tema basicamente chato, preferia debater outros assuntos, igualmente em voga na Idade Média. Por exemplo, a carne dos barometz, os famosos carneiros tártaros, que comprovadamente brotam dos frutos de uma grande árvore, pode ou não ser considerada vegetal? E, sendo considerada vegetal, podemos então consumi-la durante o jejum pascal sem receio de ofender a Deus Nosso Senhor?

Outra questão: neste plano planeta em que habitamos, onde se encontram, afinal, os cinocéfalos, as melosinas e as sereias? Tenho mais interesse nas sereias e nas melosinas do que nos cinocéfalos, essas prodigiosas criaturas com corpo humano e cabeça de cão, mas ainda assim gostaria de saber em que país se escondem. Talvez o feiticeiro imperial da nação, pai espiritual do grande líder e de todos os terraplanistas brasileiros, o filósofo Olavo, nos possa esclarecer.

Sejamos sinceros: o que o Brasil tem hoje não é um governo — é um anacronismo. Nem Bolsonaro nem os seus ministros produzem algo que se assemelhe a um pensamento novo. Eles não são capazes de gerar ideias — apenas recordações. Muito menos ideais. Fico com a impressão de que Bolsonaro nem sequer pertence ao domínio da análise política, mas da paleontologia. Nunca o passado foi tão ameaçador.

Terraplanistas, tartufos evangélicos e revisionistas boçais se superam quase que diariamente na vã tentativa de desqualificar a racionalidade, a ciência e a cultura



Caos calculado

Sérgio Augusto

Em sete anos caiu em 15% o número de empresas que trabalham com cultura no País

Antes das desgraças da semana que amanhã chega enfim ao fim, até que nos divertimos um pouco com a insânia presidencial. Acusar Leonardo DiCaprio de financiar as queimadas na Amazônia foi demais. Embora, no fim das contas, frustrante. Ficamos esperando que o presidente acusasse Brad Pitt de haver financiado Adélio, o esfaqueador acidental, e Angelina Jolie de insuflar populações indígenas contra garimpeiros e madeireiros no Cerrado, e nada.

Não sei se faltou imaginação ao capitão ou seus áulicos o convenceram de que ele fora longe demais em sua demente escalada acusatória. Ou, hipótese mais provável, era só aquilo mesmo: uma mentira bem espalhafatosa para desviar a atenção das investigações sobre as alegadas ligações dos Bolsonaro com as milícias e o assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes y otras cositas más.

Pois esse é o jeito de governar do capitão, fiel discípulo de Steve Bannon, o Maquiavel digital da extrema-direita internacional, o estrategista do “caos calculado”, para quem uma fake news mil vezes repetida talvez não vire verdade, mas espanta, atemoriza e distrai a patuleia e o comentariado político. Trump também governa assim, o vade-mécum é o mesmo.

Que outras patranhas inacreditáveis não estarão engatilhadas para envolver sob espessas cortinas de fumaça as eventuais consequências da barbeiragem contábil da equipe do Guedes denunciada pelo Financial Times e do powerpoint de Joice Hasselmann, também na quarta-feira?

Para sorte do capitão e nosso azar, não lhe faltam parceiros na contínua ramboiada a que seu governo se reduziu. Quando não é ele a disparar disparates diversionistas, seus ministros e apaniguados se incumbem de provocar estupor e troça, com uma proficiência jamais manifesta nas funções para as quais são sustentados com os nossos impostos.

Escolhidos pela mesma lógica das provocações presidenciais, formam um bando de ineptos sicofantas, mentalmente abduzidos pelo olavismo, de quem até a direita minimamente ilustrada e civilizada prefere guardar distância.

Terraplanistas, tartufos evangélicos, revisionistas boçais, eles se superam quase que diariamente na vã tentativa de desqualificar a racionalidade, a ciência, a cultura, a religiosidade humanística e a convivência diplomática. Não administram nem protegem, apenas destroem o que lhes cabe gerir e resguardar, sejam florestas, princípios civilizatórios, verdades históricas, evidências científicas, e o que mais esteja aos cuidados dos ministérios do Meio Ambiente, da Educação, da Cidadania e das Relações Exteriores, não por acaso os mais afinados com a política de terra arrasada do bolsonarismo.

A bizarra expiação de Leonardo DiCaprio pelo duce do Planalto mal começara a provocar gargalhadas mundo afora, quando o novo presidente da Biblioteca Nacional, Rafael Nogueira, youtuber monarquista e orgulhoso cobaia de uma bem-sucedida olavagem cerebral, e Danilo Mantovani, novo presidente da Funarte, ambos nomeados pelo secretário de Cultura Roberto Alvim, aquele que recentemente agrediu Fernanda Montenegro, iniciaram uma cruzada obscurantista contra Caetano Veloso, os Beatles e outros que, em sua obtusa visão, incentivaram entre nós o analfabetismo, o consumo de drogas e o aborto.

Imaginem que males terríveis esse trio deve atribuir à insaciável “satisfaction” e à “simpatia pelo diabo” dos Rolling Stones.

Com essa malta de brucutus indisfarçavelmente movidos pela inveja e pelo ressentimento comandando a cultura, estrangulando o melhor do cinema brasileiro - logo agora, numa de suas fases mais fulgurantes -, só os muito otimistas não receiam uma nazificação em massa das artes e da reflexão no país, pari passu com as grotescas intervenções no sistema educacional da pastora Damares “Eu vi Jesus na goiabeira” Alves e do semianalfabeto Abraham Weintraub, que no período de um mês cometeu 33 erros de português em sua conta no Twitter.

Em sete anos caiu em 15% o número de empresas que trabalham com cultura no País. Quantas mais não encerrarão suas atividades até o fim desse pesadelo em que nos meteram?

Minha ideia inicial para esta coluna era traçar alguns paralelos entre dois aniversariantes (os 51 anos do AI-5, baixado pela ditadura militar em 13 de dezembro de 1968, e os 80 anos do DIP, Departamento de Imprensa e Propaganda do Estado Novo, criado por Getúlio Vargas, com total apoio dos militares, em 27 de novembro de 1939), mas, atropelado pelo massacre de Paraisópolis, entre dar uma de Adorno e não ver sentido em escrever sobre qualquer outro tema diante daquele ato de selvageria armada, optei pelos absurdos que mais diretamente têm afetado e podem afetar ainda mais nossa maneira de pensar, fazer e consumir cultura.

Quando Hitler implantou o 3.º Reich, Goebbels passou a cuidar pessoalmente da informação e da propaganda do regime nazista - do DIP alemão, enfim. Infinitamente mais ladino e culto que todos os auxiliares de Bolsonaro juntos (bem, isso Lourival Fontes, o mandachuva do DIP, também era), Goebbels planejava entregar a Fritz Lang os destinos da indústria cinematográfica alemã. Outro nível.

Goebbels chegou a conversar com o cineasta, em palácio. Mas Lang, a bordo de uma desculpa esfarrapada, largou a mulher e fugiu para a França e, em seguida, Hollywood. Foi aí que a eminência parda do führer fixou sua atenção em Leni Riefenstahl, cujo superlativo talento ninguém põe em dúvida.

É preciso certa cautela ao compararmos o Brasil de 2019 à Alemanha de 1933-1945.

Os maiores estragos do bolsonarismo


Moisés Mendes

OS FALSOS BOLSONARISTAS

Quais são os maiores estragos do bolsonarismo? O maior, o dano indiscutível, é o da destruição do que resta de coesão social. No sentido mais amplo, do extermínio de conquistas elementares de pobres e miseráveis.

O cineasta Fernando Meirelles abordou, em declarações desta semana, o que talvez seja outro dano ainda não bem medido e que pode ser, pelo menos para a classe média, maior do que os prejuízos econômicos e políticos, que um dia serão reparados.

Até os danos na área cultura e de costumes poderão ser revertidos com o fim do período de trevas. Mas um estrago é profundo. Bolsonaro dividiu as famílias e os afetos ao meio, em alguns casos com embates irreversíveis.

“Famílias estão se separando por causa desse cara. Isso é realmente estúpido, e ninguém fala com o outro. Então, a tolerância se torna algo realmente raro no meu país".

Podem dizer que essa é uma conversa antiga, só dos brancos, e que os bolsonaristas já existiam (e existiam mesmo), em outro estágio, e que a extrema direita só exacerbou o que era administrado. Os reacionários mudaram de nível e chegaram ao topo.

O reacionarismo antes encoberto, protegido pelo tucanismo, controlado por algum esquema familiar de moderação, agora está liberado. O fracasso dos tucanos gerou Bolsonaro, criado pelos próprios tucanos.

O que Meirelles diz parece óbvio e repetitivo, mas o Brasil precisa ouvir frases óbvias, para que uma hora saia do atoleiro do bolsonarismo.

A ação política reparadora de condutas terá de ser feita dentro de casa, para que pretensos bolsonaristas voltem a ser apenas coxinhas. Coxinhas chatos, mas toleráveis.

Há muita gente que pensa ser bolsonarista mas não é. Não são ideológicos, nem pragmáticos, são ocasionais, eventuais, estão no lugar errado com a turma errada.

São falsos bolsonaristas. Esses precisam de uma conversa. É dureza, mas não tem outro jeito. Quem começa?

Bolsaplanismo



Rock fascista


O Brasil foi dos países que mais evoluíram no Pisa antes do golpe

Fernando Haddad

Pisa 

O Brasil foi dos países que mais evoluíram no Pisa entre 2000 e 2009. Se tivéssemos mantido o ritmo de melhoria nos nove anos seguintes, teríamos sido, em 2018, o país líder em qualidade da educação básica na América Latina, ladeado pelo Chile. Em 2030, ficaríamos próximos da OCDE, cuja média, por sinal, caiu no período 2000-2018.

O biênio 2000-2001 marca o nosso fundo do poço em termos de qualidade educacional, tanto nas avaliações internacionais quanto nas nacionais. Avaliar qualidade da educação por meio de testes padronizados é um procedimento discutível, mas nas condições em que se encontravam as escolas brasileiras, tão distanciadas do compromisso com a aprendizagem, não havia alternativa senão adotá-los.

No governo Lula, aumentamos em 2% do PIB o investimento público em educação básica (para 5%), mantendo no mesmo patamar de 1% o investimento em educação superior. Pela primeira vez na nossa história, o Brasil investia em educação pública a média da OCDE como proporção do PIB.

Por meio do Fundeb e do FNDE, canalizamos os recursos adicionais para os dez estados mais pobres da federação, nas regiões Norte e Nordeste. Com a criação do Ideb, passamos a monitorar escola por escola, rede por rede.

Os resultados foram extraordinários no ensino fundamental 1 e bastante razoáveis no ensino fundamental 2. O ensino médio (foco do Pisa), contudo, não reagiu, a não ser naqueles estados apoiados pela União.

Os dados são eloquentes. Pelo Ideb do ensino médio estadual, Pernambuco (4,0) superou São Paulo (3,8), alcançado pelo Ceará (3,8), que superou Minas Gerais (3,6), Rio Grande do Sul (3,4) e Rio de Janeiro (3,3), alcançado pelo Piauí (3,3). Os estados do Nordeste estão demonstrando uma capacidade de gestão muito superior aos do Sul-Sudeste, com exceções.

O MEC deixou de divulgar os resultados do Pisa por estado, mas não creio que os resultados seriam diferentes. Tudo leva a crer que a estagnação da média brasileira tenha a ver com a evolução da qualidade do ensino médio público das regiões mais ricas do país.

Evidências sugerem que há uma correlação entre investimento e qualidade, mas até certo ponto. A partir de determinado patamar (US$ 8.000/aluno por ano), outros fatores passam a ser mais relevantes. Basta notar o sofrível desempenho da elite brasileira no Pisa.

O apoio técnico federal à gestão das escolas e redes públicas estagnadas deveria estar no alto das preocupações do MEC.

São considerações de quem, da creche a pós-graduação, apresentou resultados quantitativos e qualitativos para alguém que deveria deixar de lado o histrionismo e se pôr a trabalhar.

Fernando Haddad
Professor universitário, ex-ministro da Educação (governos Lula e Dilma) e ex-prefeito de São Paulo.

Mercado exigente



Rachadinha


Não vai ser possível parar o desgoverno do atraso nos limites da luta parlamentar


Elias Machado

Quem quiser se iludir que se iluda. Não vai ser possível parar o desgoverno do atraso, da ignorância e do ódio aos mais pobres e seus filhotes, de Dória em São Paulo, a Leite no Rio Grande do Sul, passando por Witzel, no Rio de Janeiro e Zema em Minas somente nos limites da luta parlamentar porque os parlamentos eleitos no contexto do golpe parlamentar de 2016 e de uma esquerda esfacelada e dividida tem maioria ultra-conservadora. Ou os trabalhadores vão para as ruas para defender os seus direitos e a manutenção de políticas públicas e impedir a destruição do que resta do Estado brasileiro ou não vai sobrar nada. E não adianta justificar o imobilismo, alegando que não dá para mobilizar. É pura conversa fiada. Parece que até os brigadianos e os bombeiros gaúchos estão descobrindo o óbvio: não tem solução mágica. Ou se mobiliza ou vai se perder tudo!

Senzala 4.0


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sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Doria é uma bala de borracha nos olhos do País


Leandro Fortes

PROTOCOLOS

Designada como armamento "não letal", a bala de borracha segue destruindo vidas, mundo afora, dentro de uma política de mutilação cruel e deliberada, quase sempre, contra opositores de governos protofascistas.

Tem sido assim no Chile, onde mais de 200 pessoas ficaram total ou parcialmente cegas, tem sido assim no Brasil, notadamente em São Paulo e Rio de Janeiro, onde João Doria e Wilson Witzel, cada um à sua maneira, ativaram tropas de psicopatas dentro da Polícia Militar.

A PM de São Paulo já matou quase seiscentas pessoas, em 2019. A do Rio, caminha para mil e seiscentas. São recordes mundiais de violência e assassinatos de cidadãos e cidadãs cujo crime essencial foi o de terem nascidos pobres e pretos.

A chacina de Paraisópolis, inicialmente comemorada por Doria como uma ação policial bem sucedida, desnudou-se em vídeos chocantes.

Agora, diante da repercussão negativa da barbárie da tropa comandada por ele, avisa que pretender rever os protocolos da PM paulista.

Trata-se de uma declaração de fachada de um político cínico e sem nenhum compromisso com a população sob sua responsabilidade.

Doria é uma bala de borracha nos olhos do País.

Terra arrasada



Terraplanismo musical



Nelson Motta (colunista de direita)

Foram precisos 50 anos e um cérebro iluminado por Olavo de Carvalho para que fosse denunciada a conspiração macabra contra os valores familiares, urdida pela CIA em Woodstock. Para sabotar, a CIA teria distribuído LSD para o público no festival.

Só se fossem falsos, para dar bad trip. Nesse tempo não se comprava ou vendia LSD, hippies os produziam aos milhões em fazendas e laboratórios comunitários, os custos de produção eram mínimos, e os ácidos eram dados de graça: por uma causa, uma revolução, para enlouquecer o mundo que estava muito careta.

O rock induz às drogas, ao sexo, ao aborto e ao satanismo. Todas as músicas dos Beatles foram escritas pelo filósofo alemão Theodor Adorno para implantar o comunismo no Ocidente. É o “rock do branquelo doido” do novo presidente da Funarte, fundada para estimular e divulgar a arte, como o próprio nome diz.

Além de teatro, o secretário de Cultura, que Bolsonaro chama de “esse tal de Roberto Alvim”, entende de drogas, passou boa parte da vida como um “tamanduá humano” por sua capacidade de aspiração de cocaína. Sempre foi autor e diretor de talento, mas sempre mamou em verbas públicas para suas montagens teatrais. Como o “Leite derramado”, de Chico Buarque. Ficou doente. Encontrou Jesus. Abandonou as drogas, renunciou a satanás e aderiu a Bolsonaro, de quem se tornou baba-ovo oficial, e o maior inimigo do “marxismo cultural” brasileiro. Feitos um para o outro.

O público aguarda ansioso pelas produções do “exército de artistas de direita” alimentado com verbas oficiais que o secretário promete. O que terão eles de importante a dizer? Será que artistas de direita sabem fazer comédia, divertir o público? É difícil. Para fazer humor, é preciso saber rir de si mesmo. Triste é quando o drama é visto como comédia.

Mesmo ridícula e constrangedora, chega a ser divertida a atuação desse personagem do galo garnisé travestido de anjo do apocalipse, mas numa história tão vagabunda que não mereceria ser montada nem como uma chanchada.

Obrigado, Senhor


O caminho da institucionalidade nos trouxe até aqui


Luis Felipe Miguel

Marcelo Freixo votou a favor do "pacote anticrime", ao lado dos colegas do PSOL Edmilson Rodrigues e Fernanda Melchiona. Na bancada do PT, foram nada menos do que 40 votos favoráveis.

Embora Moro tenha sofrido derrotas importantes, em especial a retirada do infame "excludente de ilicitude", o sentido do pacote é amplamente punitivista. Ele aposta no encarceramento como solução para os problemas da segurança pública. Ele amplia a vulnerabilidade das populações mais pobres diante da repressão estatal.

O próprio Freixo reconhece isso, ao justificar seu voto pela necessidade de firmar uma derrota de Moro e impedir que a proposta original voltasse à apreciação do Congresso.

E, também, de honrar as negociações que permitiram a reforma do projeto.

O que o voto de Freixo ilustra é o funcionamento do parlamento - e também da disputa eleitoral - como força de inibição da expressão da radicalidade política. São mecanismos centrípetos, que estimulam e premiam a "moderação". E que trabalham, portanto, para travar transformações sociais mais profundas.

É claro que, ao votar a favor do texto que negociou na comissão, mesmo sabendo que ele não corresponde àquilo que desejaria, Freixo se cacifa como interlocutor para novas negociações.

E, ao viabilizar a aprovação de um texto que retira alguns absurdos mais graves da proposta original, ele consegue uma efetividade no seu mandato maior do que se ficasse simplesmente dizendo "não" - e vendo o projeto passar com excludente de ilicitude, "plea bargain" e o escambau.

Ao mesmo tempo, Freixo favorece sua própria candidatura a prefeito do Rio. Seu voto favorável serve como blindagem contra a acusação de que é "amigo de bandidos". Ele acena para o senso comum conservador. O cálculo também pode ser justificado: melhor isso do que deixar caminho aberto para a reeleição do bispo, não é mesmo?

Mas o custo é retirar legitimidade das posturas políticas de maior enfrentamento e afastar estes discursos do debate público. De caminhar, passo a passo, para o estreitamento do horizonte da transformação social.

É o que faz com que a democracia eleitoral, que foi uma conquista histórica da classe trabalhadora, tenha se tornado a forma padrão da dominação burguesa.

Foi o que fez com que o PT, que nasceu como promessa de uma nova forma de ação política, acabasse por se transformar em um partido da ordem.

É a pressão que a participação na institucionalidade exerce - uma vez que essa institucionalidade nunca é neutra, mas condensa uma determinada correlação de forças sociais.

No momento em que os grupos dominantes no Brasil explicitam que não aceitam mais ser contidos pela institucionalidade que eles mesmos definiram, será que o melhor caminho de fato é fazer a aposta que Freixo e seus dois colegas de bancada fizeram?

Não se trata de acusar Freixo por "traição". Ele fez uma escolha que não era simples - e suas declarações públicas mostram que ele tem consciência disso.

Mas, do ponto de vista de quem quer manter um projeto de transformação radical da sociedade, é difícil recusar a conclusão de que esse caminho inclui uma armadilha.

Dilma, as hienas e as chilenas



Moisés Mendes

São valentes os machos que atacaram Dilma em matilha dentro do avião. Os machos do bolsonarismo se unem para atacar mulheres, negros, pessoas com deficiência, índios e idosos.

O bolsonarismo é um ajuntamento de homens que temem as mulheres. No mundo instável do bolsonarista inseguro, a mulher é a maior ameaça.

Ex-aliadas devem contar o que sabem desse mundo. Joice Hasselmann precisa ir além do que revelou sobre a conversa em que Bolsonaro referiu-se a uma deputada aliada como prostituta.

Denúncias sobre envolvimento com milícias, brigas pela dinheirama do partido, laranjas e tantas outras denúncias que ninguém investiga são repetitivas.

O bolsonarismo pode ser abalado por revelações das mulheres que conviveram com algumas das facções, dentro ou fora do governo.

As mulheres devem falar, como algumas já falaram sobre como os homens do PSL usavam suas amigas para dividir a grana do fundo partidário entre os machos. Mas ainda é pouco.

Precisamos saber mais desse mundo que se manifesta em toda parte, inclusive dentro de aviões, onde o macho bolsonarista de gravata se sente mais seguro.

Os machos bolsonaristas, cúmplices da pregação que levou ao assassinato de Marielle e à matança de mulheres, precisam ser desmascarados pelas próprias dissidentes do bolsonarismo.

E está na hora de ver as mulheres brasileiras fazerem o que as mulheres chilenas fazem quase todos os dias, indo para as ruas para atacar não só o direitismo institucionalizado de Piñera, mas também o fascismo cotidiano.

Uma Dilma sozinha pode reagir, como reagiu com bravura, mas até quando? O Brasil ficaria bonito com milhões de Dilmas, Marias do Rosário, Djamilas, Manuelas, Marielles e Beneditas nas ruas.

A "vitória na derrota" de Sérgio Moro: a vida legal e a morte real


Felipe Demier

Para alguns, ingênuos talvez, o ministro da Justiça, Sérgio Moro, sofreu uma derrota política, já que seu pacote repressivo, embora aprovado, o foi sem o chamado "excludente de ilicitude". Tal exclusão do excludente, contudo, não parece ser senão a contrapartida jurídica de sua inclusão cotidiana no mundo concreto, no qual cada vez mais excluídos de direitos básicos são incluídos entre as vítimas da violência policial. A derrota política de Moro pode ser vista, assim, como a máscara legal que encobre sua vitória social. A civilização venceu no Direito, apenas porque está sendo derrotada pela barbárie fora dele. Valendo-nos da expressão do historiador polonês Isaac Deutscher, pode-se dizer que a derrota de Moro foi, na verdade, uma "vitória na derrota". Moro perdeu na Lei, mas venceu fora dela. Moro perdeu na forma, mas venceu no conteúdo. A suposta vitória de seus adversários no Parlamento não passou, assim, de uma "vitória de Pirro".

O "excludente de ilicitude" foi derrotado no Congresso precisamente no mesmo momento em que fica cada vez mais evidente sua vitória fora dele. Não tendo conseguido adentrar no território da letra fria da Lei, fez-se lei quente fora dele, isto é, afirmou sua legalidade nos territórios habitados por trabalhadores e oprimidos. A Constituição se livrou da "licença para matar" justamente quando a constituição de tal "licença" no mundo extra-constitucional avança visivelmente. A legalidade se protegeu dessa "licença" apenas para que a mesma possa continuar a viver livremente na realidade, desprotegendo realmente os que só são cidadãos perante à Lei. Sua legalidade jurídica foi negada apenas para que sua legalidade ontológica fosse conservada. O universo legal se manteve limpo, branco e incólume apenas para que o universo real seja cada vez mais manchado de sangue pobre, periférico e preto.

Assim, a justiça pode continuar com os olhos vendados justamente para que os policiais tenham cada vez mais seus olhos voltados para os negros e pobres, e que disparem suas armas a olhos vistos. Aqueles que pouco ou quase nada podem se utilizar das armas da Lei continuarão a viver sob a lei das armas. A licença de matar foi rejeitada na lei apenas para que continuasse a ser concedida por fora dela, e utilizada livre e cruentamente pelos agentes que em seu nome agem.

Inconformado com os limites que a Lei impunha à conservação da ordem burguesa, o político conservador francês do século XIX Odilon Barrot certa feita bradou: "a legalidade nos mata!". Parafraseando o mesmo, pode-se dizer que hoje a legalidade já não precisa matar, pois se mata muito por fora dela para garantir a ordem burguesa. Em suma: os direitos humanos podem continuar a figurar na Lei apenas porque já não existem mesmo fora dela para os humanos negros, pobres e favelados. A vida pode continuar a ser garantida pela Lei apenas porque fora dela o que está garantido é o aumento exponencial das mortes de trabalhadores e oprimidos. O império da Lei pode continuar a existir tranquilamente apenas porque o que existe fora dele é a imperiosa morte de pobres. O paraíso almejado por Moro é um Brasil onde todo santo dia exista uma nova Paraisópolis.

PIB do Brasil ainda dança na noite dos desesperados


Vinicius Torres Freire

É um erro perguntar se o Brasil vai viver outra década perdida na economia. Já viveu. Ao final deste ano, a renda per capita ainda será menor que a de 2010.

E daí?

Estatísticas históricas não pagam dívidas. Agora seria o caso de “enterrar os mortos, cuidar dos vivos e fechar os portos” (ou abrir?), como teria dito um marquês ao rei de Portugal sobre o que fazer depois do terremoto de Lisboa, em 1750. Mais difícil é o que fazer diante de tantos mortos-vivos da miséria de 2020, mas o marquês desconhecia o apocalipse zumbi.

A história da renda per capita serve para nos lembrar do buraco em que ainda estamos, fossa esquecida nestes dias de discussões sobre ninharias decimais e outros ruídos estatísticos do PIB, festejado com bajulação, quando não com mentiras em TV nacional. A economia vai crescer 1,1% ou 1,3%? É “néris e reles e nem nada de nada” (cortesia de Haroldo de Campos, o poeta).

É verdade que, desde 2014, não havia perspectiva mais fundamentada de algum crescimento como agora. O ano de 2020 pode ser melhor, dados os desempenhos do segundo e do terceiro trimestres de 2019, o estímulo artificial da demanda (“voilà”) de FGTS e afins, juros baixos e certa arrumação da casa fiscal.

O que será esse PIB depois da gripe? Segue um exemplo, de relatório do Credit Suisse:

“Os números mais favoráveis da população empregada e a implementação de medidas para tornar o mercado de trabalho mais flexível no Brasil devem mudar a composição da massa salarial nos próximos anos. Esperamos que a massa salarial continue a apresentar expansão moderada em 2020-2021. O principal motor desta aceleração deve ser a expansão da população empregada, com crescimento do salário real mais modesto do que em anos anteriores”.

Isto é, a soma de rendimentos do trabalho vai crescer porque deve haver mais gentes empregadas, não por que vão ganhar mais, também por causa da reforma trabalhista. O salário médio ora cresce ao ritmo anual de 0,6%.

Sim, estão dadas algumas condições necessárias, quando não típicas, de saída de recessões, como juros baixos e salários reais deprimidos. Mas o fato é que o impulso para crescer será pequeno, embora seja difícil prever parte da reação de empresas às condições econômicas e financeiras.

Não haverá grande investimento privado, não haverá obras concedidas à iniciativa privada e o investimento público ainda vai minguar, o que tem sido até comemorado por muito analista Pangloss jeca, um mercadismo do mais vulgar. No mais, vai devagar a limpeza de entulhos regulatórios e distorções de mercado que tornam a economia essa ineficiência cartorial demente.

Muito importante, não se sabe até quando vai funcionar esta nossa geringonça de direita, o “parlamentarismo branco” que governa o país na economia e no mais contém tentativas de atrocidade maior do governo.

Jair Bolsonaro continua firme no seu propósito de “quebrar o sistema” político-partidário e democrático. Note-se que tumulto político anual tem sido a norma desde 2013, o que muito contribuiu para destroçar a economia.

Ainda atravessamos a “noite dos desesperados”, aquele filme sobre os concursos sinistros de dança sem fim da Grande Depressão nos Estados Unidos: os dançarinos que não morressem de exaustão levavam um troco para casa.

No concurso de 2020, ganha quem não morrer depois de uma maratona 24/7 de entrega de bolo de pote para um aplicativo de restaurante.