quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Vexame à vista...


Ciro Gomes é uma versão bastante piorada de José Serra

Vinícius Carvalho

Uma coisa é militante trocando ofensa, o que por si só não é algo construtivo mas faz parte do jogo. Outra coisa são lideranças dentro do mesmo campo político agindo como moleques. Líder tem que liderar e não jogar pra torcida.

Haddad é chamado de bobão, de pela-saco, de otário, de poste, de liberaleco pela turma cirista, mas tem se comportado como adulto, assim como o Flávio Dino. O curioso é que essa mesma turma cirista, que chama o Haddad de liberaleco milita num partido que não tem unidade sequer para votar numa reforma de previdência, e tem no seu coronel a figura perfeita para que esse tipo de picuinha e baixaria mantenha o tom.

Ciro Gomes sofre o mesmo mal de José Serra, acha que é iluminado, que foi o escolhido para ser presidente custe o que custar. Só que diferente do Serra, ele não tem mandatos. Serra jogou sujo, sempre, mas nunca foi preguiçoso. Serra arregaçou as mangas, foi prefeito, governador, senador, ministro, sempre fazendo o mal, sendo lobista de petroleiras gringas, mas pelo menos inseria-se no debate político. Serra é um canalha da pior espécia, mas teve uma coisa que o Ciro não tem, botou a cara pra bater NAS URNAS, e não apenas em entrevistas no Pânico no Rádio e nos confortáveis ambientes universitários, falando para um público que se deslumbra a toa.

Ciro quer ser presidente dando uma de Rainha da Inglaterra, jogando discursos prontos para a imprensa, atacando a tudo e a todos, puxando o saco de muita gente que não presta, quer escolher adversários e aliados perfeitos, quer ensinar partidos do mesmo campo como criar o ambiente perfeito para ELE, o REIZINHO ILUMINADO, tenha uma vitória pavimentada, assim, na moleza, sem fazer nenhum esforço, sem trabalhar. Acha que tem a resposta pronta para tudo, falando muita merda também, e encantando um monte de adolescente idiota com sua retórica de segurança de puteiro, uma espécie de Bolsonaro neokeynesiano, mas que por sinal, aparentemente entende muito menos daquilo que ele se presta a falar que é economia, já que é academicamente pífio e sem relevância. Não obstante, defende um "desenvolvimentismo nacional" a recriação de uma "era de ouro do capitalismo" já completamente anacrônica.

Mente de forma contumaz, mente sobre economia, mente sobre a Dilma, faz ataques misóginos diuturnamente, mente sobre aliados, mente sobre adversários, faz chantagem, se recusa a reconhecer a sua limitada estatura eleitoral, tem uma horda de robôs, moleques mimados e tiozões tarados na rede.

É o famoso caso do engenheiro de obras prontas ou, na melhor das hipóteses, daquele pistoleiro que se acha atirador de elite mas é trapaceiro, quando ninguém está vendo ele atira primeiro e pinta o alvo depois em cima.

Ciro não tem mandato de executivo desde o início dos anos NOVENTA. QUASE 30 ANOS. Se fosse um jogador de futebol, seria como se o ROBERTO DINAMITE quisesse agora voltar aos campos BOTANDO BANCA ainda.

Se vai existir uma frente ampla em 2022 ainda não sabemos, mas Ciro não apenas não é uma opção, pelo menos enquanto não parar de falar merda, como ainda só diminui de estatura a cada dia.

Existe um ditado que na política não se tem inimigos, mas adversários, e os tipos de ataques e baixarias do oligarca de Sobral, não ocorrem nem entre adversários históricos. Maluf, Brizola, Sarney, Covas, Freire, Lula, Collor, por mais que se odiassem, jamais falariam as baixarias que esse camaleão boçal que por hora está do PDT andou dizendo.

E o pior, movimentando uma cambada, um submundo de adolescentes nas redes sociais que em nada difere da militância bolsonarista.

Que morra no ostracismo.

Não é de diálogo que o Brasil precisa. É de ruptura


Chega de diálogo. A partir de certo ponto é apenas inútil

Se há algo que marcou o Brasil nos últimos trinta anos foi a profusão de diálogo, quando muitas vezes é necessário dar forma à recusa clara em dialogar. Não é de diálogo que o Brasil precisa. É de ruptura
De todas as ilusões que se desfazem atualmente no Brasil, uma das mais urgentes a se livrar é aquela que leva alguns a acreditar que nosso momento histórico pede mais diálogo. Ao contrário, é possível que chegou enfim a hora de dizer claramente: chega de diálogo. A partir de um certo ponto, dialogar é não apenas inútil. É espúrio. Se há algo que marcou o Brasil nos últimos trinta anos foi a profusão de diálogo. Nosso fim da ditadura foi “dialogado”. Antigos oposicionistas, militares torturadores, empresários que apoiaram o golpe e financiaram crimes contra a humanidade: todos eles “dialogaram”, fizeram uma transição “sem revanchismo” (como se dizia a época), sem nenhum terrorista de estado na cadeia. Depois, os governos da Nova República eram todos marcados pelo “diálogo” entre esquerda e direita, mesmo o PP que abrigou o sr. Jair Bolsonaro por 27 anos estava em todas as coalizões de governo. Todos “dialogaram” com Bolsonaro, mesmo quando ele expunha claramente seu desprezo a princípios elementares de direitos humanos. Em uma situação minimamente normal, seus impropérios como deputado teriam lhe valido a cassação de mandato. Como se não bastasse, até mesmo com as igrejas evangélicas o que não faltou foi “diálogo”. Edir Macedo estava lá “dialogando” com Lula e Dilma. O PSC do sr. Marco Feliciano fazia parte da coalizão de Dilma Rousseff. Mais um com quem não faltou “diálogo”.

Neste sentido, a experiência brasileira é pedagógica em mostrar quão pouco se consegue com diálogo. Na verdade, o diálogo é nossa pior maldição. Muitas vezes, é necessário dar forma à recusa clara em dialogar. Quem dialoga com pessoas que louvam torturadores e assassinos como “heróis nacionais” não sabe qual o valor das palavras. Quem procura dialogar com aqueles que sustentam ações ambientais criminosas e tentam por todos os meios esconder a catástrofe que produz até o momento em que o céu de São Paulo se torna escuro por confluência com nuvens de queimadas, perde seu tempo. Não é de diálogo que o Brasil precisa. É de ruptura.

Vejam o caso da destruição da Floresta Amazônica. Nunca o Brasil foi tão claramente colocado na posição de estado-pária pela opinião pública mundial, nunca estivemos tão isolados e dependentes do bem querer dos norte-americanos para evitar uma reação brutal do resto do mundo. Não é só o governo francês que está em rota de colisão conosco. Noruega e Alemanha já suspenderam ajuda econômica à Amazônia. Ou seja, as consequências econômicas só estão a começar. Multinacionais começam a boicotar o couro brasileiro, em breve grupos ecologistas começarão a fazer campanha contra o Brasil. Nunca na história desse país alguém viu algo parecido. Agora pergunte se isso levou o governo brasileiro a modificar sua política ambiental? A resposta é: em nem um milímetro. Infelizmente, o único “diálogo” que latifundiários com mentalidade colonial e assassinos de índios compreendem é o boicote econômico.

Agora, também fica claro o caráter da elite econômica que sustenta este governo. Há algumas semanas, o presidente do banco Itaú Unibanco, o sr. Candido Bracher, o mesmo banco que bate recordes de lucro líquido enquanto a economia nacional estaria pretensamente em “crise”, mostrou quais são seus verdadeiros interesses. O representante-mor do partido do Dinheiro deu a entender que as declarações de Bolsonaro, fator fundamental para a explicitação da democracia degradada em que vivemos, não afetavam o que realmente importa, a saber, as reformas que privilegiam a elite rentista brasileira. E ainda de quebra afirmou que 12 milhões de desempregados não é algo que realmente deveria nos preocupar, pois isto ajudaria a quebrar a pressão inflacionária.

Os milhões de brasileiros que voltaram à pobreza, os milhares que voltaram à miséria nas ruas da cidade na qual este senhor habita não parecem realmente perturbá-lo. Da mesma forma, ninguém no Partido do Dinheiro está preocupado com o crescimento pífio da economia nacional e com o horizonte de retração que avizinha. Eles se preocupam apenas com a próxima leva de privatizações que aproveitarão como abutres que crescem em volta do poder. Achar que é possível dialogar com esta classe foi uma das mais crassas ilusões que marcou este país. Que ao menos tudo isto sirva para ficar claro contra quem combatemos.

A República do Miserê



O fundão eleitoral, o carguinho do filho e a república do miserê

Bruno Boghossian
Bolsonaro, o Congresso e outros órgãos se movem por interesses particulares
O procurador que chamou seu salário de R$ 24 mil de "miserê" poderia ser nomeado porta-voz de um grupo que está espalhado pela máquina pública. Sua desfaçatez representaria bem os partidos que tentaram engordar seus caixas em mais um ano de crise. Serviria também ao político que move montanhas para dar um cargo ao próprio filho.

Numa cultura de privilégios e cegueira deliberada, servidores, parlamentares, dirigentes partidários e o presidente da República tratam o Estado como patrimônio pessoal.

Um integrante do Ministério Público de Minas achou razoável fazer queixa de sua remuneração numa reunião do órgão. "Já estou baixando meu padrão de vida bruscamente, mas eu vou sobreviver", afirmou. Num lamento, ele disse que precisou reduzir seus gastos com cartão de crédito para R$ 8.000 por mês.

Certas autoridades costumam deixar de lado o pudor quando discutem seus interesses financeiros, mesmo quando as contas do governo estão na pindaíba. A manobra desastrada dos partidos para colocar até R$ 3,7 bilhões no fundo eleitoral e reduzir as regras de fiscalização desse dinheiro é uma face desse pouco-caso.

O país ainda não conseguiu elaborar uma maneira justa e responsável de financiar as campanhas depois que foram proibidas as doações empresariais. É inexplicável, porém, que o Congresso tenha trabalhado só para pegar mais recursos enquanto, na surdina, afrouxava as regras para a prestação de contas.

Mas a república do miserê não se manifesta só em busca de moedas no cofre. É a mesma força que impulsiona Jair Bolsonaro a colocar a Presidência a serviço do esforço para emplacar um filho na embaixada brasileira em Washington e a interferir em órgãos de investigação para proteger outro de seus rebentos.

Governantes que atuam em causa própria são uma tradição brasileira. Alguns podem tentar se esconder atrás da retórica da nova política e de reformas econômicas, mas dificilmente conseguirão disfarçar suas ambições particulares.

Ignorância bilíngue


O inglês do Tarzan

Ruy Castro

Há dias, quando o ator Peter Fonda morreu, um veículo publicou uma declaração de sua irmã, Jane Fonda. Ela dizia estar arrasada com a morte de seu “irmãozinho de coração doce”. Não sou diabético, mas essa imagem pode ter alterado meu nível de glicose, e só um exercício intelectual me levou a concluir que Jane devia estar se referindo a seu “little sweetheart brother” —seu “irmãozinho querido” ou, amorosamente, “namoradinho”.

Pérolas equivalentes, frequentes no noticiário, são “plant” (fábrica) por planta, “library” (biblioteca) por livraria, “argument” (discussão) por argumento, “appointment” (encontro) por apontamento e “realize” (concluir) por realizar.

Os erros, hoje, vêm até nos melhores livros. “We’re in business” (agora vai ou vamos nessa) se tornou “estamos no negócio”. “My gentleman friend” (o “coronel” ou o “senhor que me ajuda”) passou a ser “meu cavalheiro amigo”. E “we were drinking buddies” (nós éramos colegas de copo) transmutou-se no hilário “estávamos bebendo umas Buddies”.

Mas estamos avançando rumo à condição de 51º estado americano. A velha “vaquinha” tornou-se “crowdfunding”. Aleatório é “randômico”. Gostar de alguém é “dar um match”. Estar a fim é “ter um crush”. E uma palavra já incorporada ao léxico, “delivery”, não se limita mais à entrega em domicílio da pizza pelo motoboy. Assim como em inglês, estendeu-se —em português— a cumprir ou deixar de cumprir alguma coisa: “Fulano era uma grande promessa, mas não entregou o que se esperava dele”.

Pela abundância de inglês em nossas placas, fachadas e camisetas, era como se o falássemos tão bem quanto os alemães. Que nada. Pela avaliação internacional, somos tão monoglotas quanto os russos.
E, se o Senado ratificar Eduardo Bolsonaro, teremos em Washington um embaixador que, como diria o inesquecível Telmo Martino, aprendeu inglês com... Tarzan.

DALLAGNOL AINDA PRECISA EXPLICAR O PLANO BILIONÁRIO


Moisés Mendes

A decisão do ministro Alexandre de Moraes de homologar o acordo sobre o destino dos R$ 2,6 bilhões da Petrobras encerra uma parte do imbróglio, mas não toda a história.

Pelo acordo, o dinheiro que Deltan Dallagnol queria para uma fundação irá para a educação e para a Amazônia. É uma boa decisão, mas ainda falta muito para que a questão toda seja esclarecida.

Sabe-se que a tentativa de Dallagnol de se apropriar do dinheiro via fundação só foi barrada porque houve reação generalizada (inclusive nas redes sociais), e até a procuradora-geral, Raquel Dodge, ajuizou uma ação no Supremo para impedir que prosperasse a ideia de um subordinado sem escrúpulos.

Em nome da transparência que os lavajatistas tanto defendem, falta esclarecer como Dallagnol se envolveu no projeto, qual era a intenção dele e de seus colegas e que delito está configurado nesse sequestro.

O juiz Sergio Moro, que comandava a Lava-Jato, tinha alguma participação? Dallagnol foi adiante no projeto sem o aval do juiz que orientava suas atitudes em Curitiba?

Uma tentativa de furto, agressão ou homicídio não se esgota com a interrupção da ação. A tentativa de apropriação de um fundo público, com recursos de uma estatal, não pode ser encerrada como se nada tivesse acontecido.

Deltan Dallagnol tinha o projeto de ganhar muito dinheiro com palestras, o que era no mínimo estranho, mas até aceitável por alguns colegas e juristas amigos. O que nunca seria razoável era o plano de desviar os R$ 2,6 bilhões para uma fundação de combate à corrupção.

Não há nada semelhante talvez no mundo todo. Não há combate à corrupção que possa dispor do equivalente a uma vez e meia o orçamento total de uma universidade do porte da UFRGS.

Quem cuidaria do dinheiro? O procurador precisa dizer que estrutura estava montando para gerir a fortuna.

Mas quem irá obrigá-lo a isso? O recurso formal esgotou-se com a ação por descumprimento de preceitos fundamentais (ADPF), que Raquel Dodge encaminhou em março ao STF? Nada mais será feito no sentido de forçar o procurador a se explicar?

Enquanto isso, já noticiam que Dallagnol continua dando palestras por aí. Ele até pode dar palestras. O problema, numa hora dessas, é de quem se dispõe a ficar mais de uma hora escutando o que ele tem a dizer. E o que Dallagnol tem a dizer?

Três biografias para Sergio Moro

Gregorio Duvivier
Ainda resta ao juiz uma esperança: o esquecimento
Querido Sergio Moro, vi que você gosta de ler biografias, mas ainda assim não consegue citar nenhuma. Entendo a dificuldade: imagino que esteja muito empenhado tentando salvar a sua. Tomo a liberdade de indicar três obras de não ficção —afinal de ficção já bastam suas sentenças.

“O Tiradentes”, do Lucas Figueiredo, conta a vida de um herói nacional —aquilo que você imaginou que viria a ser, antes de virar figurante de chanchada. Com base em documentos oficiais, Figueiredo perfila esse preso político, único condenado de fato pela conspiração da qual ele era, coincidentemente, o mais desvalido dos integrantes.

Seu advogado Dr. Oliveira Fagundes fez todo o showzinho da defesa e compôs uma peça sólida, ignorada pelo juiz português —que, só se descobriu depois, tinha chegado ao Rio, meses antes, com a sentença já escrita. Tudo, acredite se quiser, se baseava em delações. O primeiro delator, Joaquim Silvério dos Reis, um dos homens mais ricos e endividados da colônia, teve suas dívidas perdoadas —mais ou menos como você perdoou, duas vezes, o doleiro Alberto Youssef.

A corte também fez vista grossa pros conspiradores do Estado, que não eram poucos. Talvez lhe parecerá estranho, mas lembra que você perdoou até o Onyx.

Mas, claro, é preciso ser justo: ele se arrependeu.

Vários foram os juízes que condenaram Tiradentes e, ainda assim, ninguém se lembra do nome de nenhum. Isso pode te servir de consolo. Mesmo orquestrando uma farsa que elegeu o homem que hoje te emprega, existem fortes chances de que a história te esquecerá.

Mas talvez esteja cansado de política brasileira. “Medo”, do Bob Woodward, não é exatamente uma biografia, mas a história das eleições em que um bufão chegou ao poder. À sua volta, todos pensam que poderão usá-lo, sem perceber que legitimaram um autocrata que os descartará na primeira oportunidade.

Deviam ter suspeitado: não há papel mais triste —nem mais ingrato— que o de ajudante de bufão.

Pra terminar, vale ler “Cartas da Prisão”, de Nelson Mandela. A coletânea de cartas publicada pela Todavia conta a história de um líder político que passou 27 anos na prisão após uma condenação. Desculpa o spoiler: o sujeito sai da prisão ainda maior do que entrou, e termina presidente do país que o prendeu.

Ah, não está ali o nome do juiz que o condenou. Ufa.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Entrevista com o Vampiro


A suposta imparcialidade dos isentões


A fraca matéria de capa da Ilustrada (da Folha) de hoje mostra bem a que serve a tese da "polarização".

Uma pesquisa "sobre o mercado editorial brasileiro" (mas na verdade sobre a Amazon), com Ortellado e tudo, detectou que há um "fla-flu ideológico". Quem compra livros de direita não compra livros de esquerda e vice-versa.

A lista dos mais vendidos de esquerda começa, vejam só, com Levitsky e Ziblatt e seu Como as democracias morrem - uma obra que convencionalmente seria incluída na ciência política mais conservadora, com uma visão limitada e elitista da própria democracia moribunda. Depois aparecem de Umberto Eco a Silvia Federici e o Manifesto comunista, incluindo um compêndio de clássicos da sociologia com textos de Marx, sim, mas também Weber, Durkheim e Simmel.

No outro lado, imperam Olavão e Mises - difícil dizer qual dos dois é o mais charlatão.

Fica evidente que aquilo que é chamado de "polarização" é, na verdade, o desgarramento e insulamento de uma parcela extremada e ensandecida da direita. Porque o que é apressadamente chamado de "esquerda" não é esquerda - é um conjunto plural e muito contraditório de posições que têm em comum, apenas, o fato de passar por um crivo mínimo de bom senso e civilidade.

A tese do fla-flu (eu me recuso a escrever "flá-flu", como faz a Folha, curvando-se a sabe-se lá que fantasias dos acadêmicos da ABL) serve apenas para que o isentão se recuse a assumir sua responsabilidade no enfrentamento à barbárie, ficando na sua cômoda "imparcialidade".


Temer diz que Dilma sofreu golpe e diz que Lula evitaria impeachment

Ex-presidente restabelece verdade histórica e derruba tese de Moro
Kennedy Alencar

Em entrevista ontem ao programa “Roda Viva”, da TV Cultura, o ex-presidente Michel Temer fez revelações que mudam a narrativa histórica sobre o impeachment da antecessora, Dilma Rousseff. Ela foi impedida em 2016.

O próprio Temer usa a palavra “golpe” para se referir ao impeachment de Dilma. Ele diz que, se o ex-presidente Lula tivesse assumido a Casa Civil em março de 2016, o impeachment não teria acontecido devido “ao bom contato” do ex-presidente com o Congresso.

Temer reitera não ter dúvida de que o prestígio de Lula perante o Legislativo teria evitado a queda de Dilma. Uma operação de combate à corrupção não pode interferir assim na História de um país. O Judiciário e o Ministério Público Federal não poderiam ter realizado uma trama política contra o então governo.

Foi o que a Lava Jato fez ao divulgar, ilegalmente, um grampo de uma conversa entre Lula e Dilma no dia 16 de março de 2016. Tal conversa foi captada quando o prazo de gravação havia se esgotado e envolvia autoridade com foro especial no Supremo Tribunal Federal. Nunca poderia ter sido divulgada.

O então juiz Sérgio Moro e procuradores da República discutiram no Telegram o risco de suas atitudes e sabiam que não era legal a divulgação, como mostrou reportagem baseada no arquivo do “The Intercept Brasil”.

A avaliação de Temer no “Roda Viva” tem credibilidade porque ele foi o principal beneficiário da queda de Dilma e conversou com Lula, tendo sido grampeado pela Lava Jato, que escondeu deliberadamente a gravação que enfraquecia a tese de que o ex-presidente queria ser ministro para obter foro no STF e fugir de Curitiba.

Temer restabeleceu a verdade histórica. Fica claro que houve, sim, golpe parlamentar, expressão que sempre foi usada neste blog e nos comentários na rádio CBN em relação ao impedimento. A tese de golpe foi negada por parcela do país. E agora, José?

Tornou-se evidente o papel de Moro e da Lava Jato na derrubada de Dilma, o que foi uma interferência política ilegal do Judiciário no Executivo. Numa democracia plena, isso não poderia ter ocorrido.

O relato de Temer ao programa apresentado pela jornalista Daniela Lima tem forte peso histórico. Ele deixa claro que o motivo para Lula ser indicado para a Casa Civil destrói o argumento da Lava Jato, de Moro e também do STF (Supremo Tribuanl Federal) para impedir que o petista assumisse o posto.

*

Flagrante ilegalidade

Outro ponto importante do dia de ontem: é flagrantemente ilegal a revelação de que os procuradores Deltan Dallagnol e Thaméa Danelon se dispuseram a fazer minuta para o advogado Modesto Carvalhosa pedir o impeachment do ministro do STF Gilmar Mendes.

Imagine um cidadão ser processado e o Ministério Público se dispor a redigir peças de um advogado de acusação. Mais: Dallagnol diz no Telegram que ninguém pode saber sobre o que ele e Danelon planejavam fazer. Ora, esconderam porque era ilegal o que discutiam no aplicativo. Trataram de processo penal no Telegram, fora dos autos, para tramar contra um ministro do Supremo.

É óbvio que o material do “The Intercept Brasil” é verdadeiro. Também é escandaloso que Dallagnol e Danelon respondam que não comentariam assuntos oriundos de crime de hackeamento. Parecem os primeiros acusados da Lava Jato dando versões falsas sobre os seus atos. Parece que a Lava Jato nunca vazou nada. Ora, já ficaram insustentáveis as versões apresentadas por Moro, Dallagnol e outros procuradores sobre esses diálogos no Telegram, revelados pelo jornalista Glenn Greenwald.

Não enxergar a gravidade desses fatos e o interesse público inerente são atitudes inaceitáveis em uma democracia plena. Tal tolerância ocorre em república de bananas. A lei e o jornalismo devem valer para todos.

A Lava Jato manipulou a opinião pública e a imprensa no episódio do grampo de Lula-Dilma. Mudou a História do Brasil, abrindo caminho para um desarranjo institucional que jogou o país nas mãos de Jair Bolsonaro. Moro e cia têm essa responsabilidade histórica que nunca será apagada. O documentário “Brasil em Transe” dá modesta contribuição para entender melhor o momento grave que o país viveu entre 2013 e 2018. Vejam aqui.

PS – Temer usou, sim, a palavra golpe para se referir ao impeachment.

Temer usou, sim, a palavra golpe para se referir ao impeachment na hora em falou do papel de Lula, que evitaria o impedimento. Noutro trecho, ele julgou o processo constitucional. Foi o que ele sempre disse. Golpe parlamentar acontece quando forças políticas decidem derrubar um presidente pelo conjunto da obra e buscam provas para lá de controversas. Houve um golpe parlamentar.

É mentira histórica passar pano para isso ou tentar amenizar o que aconteceu. O impeachment de Dilma foi político e tramado por forças que a derrubaram buscando “provas” depois do “veredito”. Esta é a História real, e o grampo ilegalmente divulgado por Moro foi fundamental para matar a última tentativa da presidente de ficar no poder. A imprensa, como um todo, precisa olhar com mais coragem e honestidade para esse período histórico. Vai acontecer, como aconteceu com 64. Leva tempo mesmo.

Os outros elementos do fascismo


Renato Janine Ribeiro 
Não se salva a democracia terceirizando sua defesa
Afirmei nesta Folha, em meu artigo “A Flip e o fascismo” (16.jul), que a principal diferença entre o fascismo e outros autoritarismos de extrema-direita é que ele tem militantes ativos, empenhados, empolgados: quem o apoia não se envergonha de usar a violência de forma banal e corriqueira. Foi o caso dos ataques a Glenn Greenwald, durante a Flip, e das ameaças a Miriam Leitão, convidada a outra feira literária.

Mas há mais dois fatores, pelo menos, que distinguem o fascismo do restante da extrema-direita: um é o desgaste ou destruição das instituições; o outro, a invasão totalitária da vida privada. Mussolini dizia: “Nada acima do Estado, nada contra o Estado” —e, pior ainda, “nada fora do Estado”. Ora, numa democracia o Estado tem várias instituições que se equilibram, fazendo o que chamamos de pesos e contrapesos. No Brasil, por forte que seja o presidente, seu poder é limitado por ao menos quatro instituições civis que pertencem também ao Estado. Como vão elas?

O Supremo Tribunal Federal, instituição decisiva por resolver as pendências em última instância, oscila. Se é verdade que limitou (poucas) medidas inconstitucionais de Jair Bolsonaro (PSL), dizem que o presidente Dias Toffoli teria alertado seus colegas a não enfrentarem um poder que comanda “300 mil homens armados”. Se a cúpula do Judiciário tem medo, o que devemos nós, simples cidadãos, sentir?

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP) receia que um veto à indicação do deputado Eduardo Bolsonaro para a embaixada em Washington (EUA) leve o Planalto a congelar emendas senatoriais. E a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, evitou atritos com o presidente.

A rigor, das quatro grandes instituições civis do Estado, apenas a Câmara, por seu presidente Rodrigo Maia (DEM-RJ), cumpre o papel de contrapeso a um presidente que pesa demais. Isso para não citar ataques aos órgãos que pensam, como universidades e institutos de pesquisa, enfraquecidos quando Judiciário e Legislativo não exercem plenamente seu papel constitucional.

O outro fator do fascismo é a invasão da vida privada. Uma das bases da democracia é o respeito às escolhas e modos de ser diferentes. Não se pode impor religião, opção filosófica, política, vocação, casamento a outrem. É o que Benjamin Constant chamou de “liberdade moderna”, numa conferência de 1819.

Aqui estaríamos mais protegidos do fascismo? O problema é que assistimos a uma forte pressão sobre a verdade, os fatos e as escolas. Quando pais de alunos não querem que seus filhos conheçam a cultura africana —da qual descende mais de metade da população brasileira—, ficamos perto do fascismo. Ou quando se corta o financiamento da pesquisa, em especial daquela que não agrada ao governo de plantão, seja na sociologia, seja na biologia.

O que nos protegerá do fascismo? Instituições são elemento positivo da democracia, mas não bastarão se não houver empenho forte dos cidadãos em defender não só suas vidas privadas como o caráter democrático dessas instituições. E a própria vida privada, que certamente não se curvará ao fascismo, traz um problema —que Constant apontava há 200 anos: o risco de nos fecharmos nela, nos desinteressando da política. É a nossa grande diferença dos gregos antigos, que podiam passar o dia debatendo a coisa pública.

Porque ninguém pense que, terceirizando a defesa da democracia para as instituições, se salva a democracia. Não há República que sobreviva se os cidadãos não tiverem, como dizia Montesquieu, virtude: no caso, a disposição de lutar pelo bem comum, contra um poder que se desmede.

“Eu jamais apoiei ou fiz empenho pelo golpe” afirma o golpista Temer

Spoiler


O fracasso da civilização no século XXI


Bufões & truculentos 


O século XXI tinha tudo para ser uma época gloriosa para a história da humanidade. No final do século XX os avanços em P&D, nas comunicações e na integração entre os grandes blocos econômicos criaram uma expectativa otimista para o futuro próximo.

Entretanto a reação conservadora acabou por se impor em um mundo que não soube enfrentar de forma generosa os desafios da globalização. 

A desigualdade entre nações, que espelha a desigualdade social no próprio interior das nações mais desenvolvidas e democráticas, acabou por fomentar movimentos nacionais radicais e o surgimento de lideranças toscas, políticos demagogos, patrocinados por movimentos conservadores e pelos detentores do grande capital movidos pela ambição sem limites no processo de acumulação.

Donald Trump, Jair Bolsonaro e Boris Johnson, políticos que lideram hoje três entre as dez mais importantes economias do mundo, são produtos desta brutal reação conservadora. 

O que têm em comum? 

São bufões truculentos, figuras de certa forma contraditórias com a modernidade e os avanços tecnológicos do mundo contemporâneo. 

Por que fazem sucesso? 

Creio que porque unem dois extremos: os setores excluídos pela modernidade e que, na condição de explorados com baixa instrução, são receptivos a discursos rasos onde religião e a promessa do sucesso e da segurança individuais dão o tom; e os setores que controlam as grandes coorporações da banca e da produção que precisam - e patrocinam - líderes populistas para executarem pautas econômicas que privilegiam o capital em detrimento do mundo do trabalho. 

Os bufões truculentos, espertos e farsantes, são empregados.

A casa da Lava Jato está caindo


Luis Felipe Miguel

Foi importante a decisão da justiça de SP rejeitando a nova denúncia contra Lula.

Tão frágil quanto as outras, ela foi apresentada agora pelo MP - e ganhou as manchetes com o espírito acrítico e “colaborativo” de sempre da mídia corporativa - como forma de mostrar que, apesar das revelações do Intercept Brasil, a Lava Jato continua na ofensiva.

Não continua. A decisão do juiz Ali Mazloum é dura: "A denúncia é inepta. Não seria preciso ter aguçado senso de justiça, bastando de um pouco de bom senso para perceber que a acusação está lastreada em interpretações e um amontoado de suposições".

Esse tom seria impensável, em relação à Lava Jato, há poucos meses. A casa está caindo e quem pode quer se descomprometer.

UM JUIZ ENFRENTA OS LAVAJATISTAS



Moisés Mendes


Finalmente um juiz desqualifica a Lava-Jato com palavras que Sergio Moro e Deltan Dallagnol nunca ouviram.

Ali Mazloum, da 7ª Vara Federal Criminal de São Paulo, rejeitou a denúncia da força-tarefa da Lava-Jato contra Lula e o irmão dele, Frei Chico, por corrupção passiva.

Leiam o que escreveu o juiz: “A denúncia é inepta. Não seria preciso ter aguçado senso de justiça, bastando um pouco de bom senso, para saber perceber que a acusação está lastreada em interpretações e um amontoado de suposições”.

A Lava-Jato esperou cinco anos para que um juiz dissesse o que Sergio Moro fez com Lula em Curitiba, a partir das acusações articuladas por ele com Dallagnol. Moro condenou sem provas.

O MP acusava o irmão de Lula de receber uma mesada da Odebrecht. O juiz, que não age como Sergio Moro, não encontrou nada, nenhuma prova.

Agora vamos imaginar o que teria acontecido se os casos do tríplex e do sítio não tivessem caído nas mãos de Moro, o chefe do Dallagnol.

É bom lembrar que essa denúncia foi apresentada pelo MP lavajatista agora há pouco, bem em meio ao escândalo das mensagens das conversas de Moro com Dallagnol.

Era uma tentativa de desviar o foco e assumir o controle da situação. Desta vez não deu certo. Talvez nunca mais dê.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

"Bacurau" é um filme de propaganda; e daí?


Réplica: Críticos dizem que 'Bacurau' é um filme de propaganda; e daí?
Mais relevante é que a discussão sobre filmes brasileiros começa a extrapolar a esfera do povo do cinema
Inácio Araujo

É consolador observar que um sociólogo como Demétrio Magnoli, representante de uma direita civilizada, se disponha a discutir um filme como “Bacurau” (Folha de 16/9), ainda que sob uma ótica abertamente dirigida a um duplo objetivo: desfazer o filme por ser de esquerda e desfazer da esquerda por aderir ao filme.

O que motiva a perda de inteligência da esquerda, enfatizada no artigo, é, sobretudo, a comparação com Glauber Rocha, em particular “O Dragão da Maldade”. Não posso falar pela esquerda e pela inteligência em geral. 

Ainda assim, não me parece uma comparação tão pertinente. Entre os anos 1960 e 2019 certas mudanças ocorreram no cinema. Os anos 1960 eram abertos a obras inovadoras e enigmáticas. Exibiam-se em várias salas filmes de Antonioni e Godard. Se, hoje, fossem exibidos nas mesmas salas daquele tempo, haveria um festival de poltronas rasgadas e gente debandando do cinema.

De lá para cá mudaram os filmes e também as pessoas. Quando o espectador não compreendia um filme, naquele já longínquo tempo, atribuía a incompreensão a suas próprias limitações e tratava de correr atrás, conversando com amigos, lendo, etc. O público de hoje é bem mais simples: quando não entende algo, simplesmente o rejeita. Se eu não entendo, o filme é ruim. Exemplo recente: as baixíssimas audiências do extraordinário “Twin Peaks”, de David Lynch.

Num país com formação cinematográfica mínima como o Brasil, isso significa rejeições por vezes absolutas a Abbas Kiarostami, Manoel de Oliveira, Chen Kaige, não importa se representam a esquerda, a direita, o centro, o Irã ou a China. Tanto faz.

Assim, a opção por um filme direto, que exprime o sentimento de opressão que sentem as pessoas do centro à esquerda desde a cada vez mais desnudada deposição de Dilma Rousseff, não é nada estranhável. Sim, as alegorias são por vezes muito simples, ao alcance de qualquer mortal. Os filmes de Glauber não eram. Demétrio sabe disso. 

Temos muitas obras mais sutis do que “Bacurau”, sem dúvida. “O Que Se Move”, de Caetano Gotardo, “Branco Sai, Negro Fica”, de Adirley Queiroz, “Sinfonia da Necrópole”, de Juliana Rojas, “ , “Gabriel e a Montanha”, de Fellipe Barbosa. Todas obras bastante ignoradas pelo público e que não mereceram comentário algum de sociólogos, médicos, engenheiros, etc., etc.

Relendo o artigo vejo que um dos grandes pecados de "Bacurau" é ser um filme de propaganda. E daí? “O Nascimento de uma Nação” foi uma grande propaganda da Ku Klux Klan, nem por isso é um filme menor. Ao contrário. Se quisermos ir à esquerda, digamos que o “Potenkim” é igualmente uma obra de propaganda. Nem por isso é menor.

E os Estados Unidos? Que dizer da série “Por que Combatemos”, que envolveu grandes cineastas durante a Segunda Guerra? Ou de todo o chamado cinema de esforço de guerra? Eram propaganda, é evidente. Mas não significam que os EUA tivessem ficado burros de uma hora para outra. Antes pelo contrário.
Os exemplos não teriam fim. Vamos em frente.

Demétrio se incomoda com o fato de a resistência aos turistas atiradores ser tão unânime. Com efeito: sob ameaça de morte não é raro populações se unirem de maneira unânime. Normalmente ocorre com países em guerra, por exemplo. Não vou dar mais uma fieira de exemplos: qualquer faroeste com cidade ameaçada serve.

Talvez o que espante em Bacurau, justamente, é participar dessa tradição normativa do cinema americano, que década após década nos ensinou como nos comportar, como beijar, como amar, como ser valente, como defender a justiça. Não é uma tradição desprezível, ao contrário.

“Bacurau” é normativo. Une bandidos e não bandidos (como, por exemplo, “Assalto à 13ª. DP”, de John Carpenter). É bastante violento, como os filmes de Sam Peckinpah  ou Robert Aldrich (nada a ver, que eu vislumbre, com Tarantino, em quem também  não vejo nada de fascista).

Aliás, assim como menciona Marielle no final, o que designa a preferência política dos autores, Carpenter é explicitamente referido no corpo do filme. Assim como é possível gostar da literatura de Céline e não ser racista.

Mesmo discordando de Demétrio, me parece um mérito do filme ter suscitado o interesse pelo cinema brasileiro de um autor que, habitualmente, não trata do cinema em geral. Penso na perda intelectual representada pelo fato de tantos filmes de igual ou maior sucesso terem passado em branco, sem despertar o interesse nem dos críticos, nem dos cineastas, nem  de gente de direita, de esquerda, do centro, o que for, com a marcante exceção do artigo da “Nova História do Cinema Brasileiro” que ensejou ensaio publicado no recente numero dos “Cahiers du Cinéma” dedicado aos filmes brasileiros.

Por fim, é da ordem da evidência que "Bacurau" é um filme sobre resistência e de resistência. Contra entrega do Brasil a estrangeiros (assassinos ou não), contra o neorracismo, contra a supremacia suposta das pessoas do Sudeste sobre as do Nordeste, pela vontade de viver contra a vontade de matar. É um filme direto, feito para ser compreendido por qualquer pessoa. É um cinema que busca se aproximar do público. De um público que aplaude a violência reativa ali representada, talvez porque a esquerda (e os democratas em geral) se sintam tão indefesos, tão incapazes de articular uma resposta à cotidiana barbárie instalada no país.

Talvez isso explique, de passagem, mais do que qualquer hipotético alucinógeno, que alguns personagens façam amor ao longo do filme: é a vontade de viver que se impõe contra a morte.

Isso é propaganda? Sem problema. Griffith já fez. John Ford já fez. Eisenstein já fez. Tanta gente já fez. A TV Globo já fez. E ninguém se incomodou com isso. Mais relevante, para mim, é que a discussão sobre filmes brasileiros comece a extrapolar a esfera do povo do cinema.

Apresentadora da GloboNews chama presidente de "Bozonaro"

Procuradores da Lava Jato conspiraram para derrubar Gilmar do STF

Procuradores da Lava Jato atuaram para tentar derrubar Gilmar do STF
Com apoio do coordenador da força-tarefa, Deltan Dallagnol, a procuradora Thaméa Danelon, cotada pelo PGR Augusto Aras para coordenar a Lava Jato em Brasília, aceitou em 2017 pedido do advogado do setor privado Modesto Carvalhosa para redigir uma minuta que pedia o impeachment do ministro do STF Gilmar Mendes. "Sensacional. Apoiadíssima. Se quiser, podemos olhar depois de você redigir", disse Deltan

247 - Procuradores da força-tarefa da Lava Jato atuaram em 2017 para tentar derrubar o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes. As revelações são do novo capítulo da Vaza Jato, divulgadas na noite desta segunda-feira 26 pelo jornalista Reinaldo Azevedo no programa O É da Coisa, na BandNews FM.

A iniciativa para a redação da minuta veio da procuradora Thaméa Danelon, que é cotada pelo novo procurador-geral da República, Augusto Aras, para coordenar a Lava Jato em Brasília. Ela recebeu forte apoio do chefe da força-tarefa, Deltan Dallagnol, para que realizasse o trabalho.

Mensagens trocadas em maio de 2017 revelam que Thaméa foi procurada por Modesto Carvalhosa, advogado que atua no setor privado, para redigir um pedido de impeachment contra Gilmar, a fim de que ele o apresentasse.

"Oi. O professor Carvalhosa vai abrir o impeachment do Gilmar. Ele pediu para eu minutar para ele", contou Thaméa ao chefe, Dallagnol. "Sensacional, manda ver", respondeu Dallagnol sobre o ato ilegal. "Seu apoio é muito importante para mim", disse a colega. "Apoiadíssima. Se quiser, podemos olhar depois de você redigir", ofereceu ainda o chefe da força-tarefa. "Quero sim, lógico. Obrigada", concluiu.

Depois de uma sugestão de Dallagnol para que fizesse contato com a equipe da Lava Jato no Rio de Janeiro, que teria "tudo documentado quanto à atuação do sócio da esposa", Thaméa citou ainda um terceiro procurador, El Hage, com quem disse 'já estar em contato' para lhe ajudar no trabalho. Ela se referia ao coordenador da força-tarefa no Rio, Eduardo El Hage.

O chefe da milícia, pelo telefone... 2