segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Direito de Folia


Sobre a implosão do INMETRO


Celio Turino

Enquanto segue o carnaval, Bolsonaro apronta mais uma, implodindo o INMETRO, segundo palavras do próprio. Para variar, ele alega que foi para diminuir burocracia e tormento aos empresários. Pura cortina de fumaça, como sempre!

A razão principal é outra, foi em relação à instalação chip nas bombas de combustíveis, medida de baixo custo, que impediria a adulteração de combustíveis com solventes, acréscimo de álcool na gasolina, derivados de nafta, óleo vegetal e até mesmo água. (Na dúvida perguntem a funcionários do Inmetro, ameaçados pelas quadrilhas de fraudadores e milicianos do governo). Como uma base eleitoral forte do Bolsonaro é composta por milicianos e outras quadrilhas, que tem na adulteração e roubo de combustíveis, uma importante fonte de renda, ele promoveu essa implosão do INMETRO.

Quem gosta de abastecer automóvel com solvente e não se importa com a corrosão do motor de seu veículo, pode aplaudir, e gritar: Mito! Mito! Também pode fazer sinal de arminha com a mão. Os demais deveriam pensar duas vezes antes de defender mais esse crime do presidente miliciano.

Em tempo: esse crime também se enquadra em razão para impeachment, entre as várias outras razões já amplamente demonstradas.

Os sites de Esquerda e o juiz ladrão


João Ximenes Braga

Hoje os sites de Esquerda repercutiram fala de Moro sobre o inquérito em que Lula foi prestar depoimento por calúnia contra Bolsonaro como se o juiz ladrão admitisse ter se confundido ou cometido um erro. Fui na fonte original, o Painel da Folha, e não é nada disso. O juiz ladrão diz que houve uma confusão, mas em nenhum momento atribui isso a um erro seu, pelo contrário, ele esclarece que desde o início o inquérito tratava de calúnia, e nunca foi mencionado a Lei de Segurança Nacional como divulgado pela imprensa naquele momento. Os sites de Esquerda não ajudam distorcendo as coisas.

Então que fique claro, o capanga de miliciano nunca pensou em enquadrar Lula na lei de Segurança Nacional por dizer, vejam vocês, que o chefe dele governava para milicianos. O capanga de miliciano apenas quis enquadrar Lula por ca-lú-nia ao dizer que o chefe dele governava para milicianos. Esses sites de Esquerda, vou te dizer...

Isto dito, já que a colunista da Folha entrou em contato com o capanga de miliciano, custava fazer mais umas perguntinha? Fica a dica:

- Mas doutor, não se passa um dia sem que o valão de Rio das Pedras transborde um pouco mais, hoje já não há alma que duvide da ligação da família do seu chefe com milicianos, fora os muito fanáticos. O senhor mesmo, de herói inconteste da garotada, já foi chamado de capanga de milicianos por um deputado federal e o apelido pegou nas redes. Diante disso, o senhor não receia cair no completo ridículo ao seguir no governo e ainda por cima perseguir opositores do seu chefe que apontam as óbvias ligações dele com as milícias?

- Saiu uma entrevista em vídeo de seu antecessor no cargo dizendo que o presidente do TRF-4 pediu pra ele dar uma forcinha pra manter o Lula preso. O senhor não concorda que isso corrobora a suspeita de conluio entre as instâncias com fins de perseguição política contra o presidente Lula para o senhor ocupar o cargo que hoje ocupa e destruir a soberania nacional pra agradar os parça do DoJ?

- O senhor não teme o impacto disso no julgamento de suspeição ou tá tudo combinado com o Supremo, com tudo?

Estou sugerindo o pra lá de óbvio, qualquer foca poderia ter feito essas perguntas. Aí fica a dúvida:

Até quando a imprensa patronal vai seguir tratando o capanga de miliciano como se fosse o hímen da Virgem Maria?

Quando o carnaval passar


Polícia para quem?


Colunista delirante da Folha espera que a ORCRIM da Lava Jato, criada nos EUA para destruir o Brasil, defenda a democracia


A Lava Jato tem coragem de defender a democracia que lhes deu tudo?

Celso Rocha de Barros

Como chegamos ao ponto de termos no governo do Brasil gente degenerada capaz de lançar contra Patrícia Campos Mello a campanha mais suja que o poder público já promoveu contra a imprensa livre em nossa história democrática?

Por incrível que pareça, a origem disso está em nossa aspiração por ética na política. Os bolsonaristas se sentem no direito de ofender e destruir porque se acham herdeiros de uma onda de indignação legítima que começa nas manifestações de 2013 e culmina na Lava Jato.

Se os membros da força-tarefa da Lava Jato não querem entrar para a história como percursores da degeneração final da democracia e da decência, devem desfazer o mal-entendido. Supondo que seja um mal-entendido.

Senhores, sem a democracia os senhores não seriam nada.

Foi a democracia que fortaleceu o Ministério Público e os mecanismos de controle na Constituição de 88, e os senhores sabem disso. Duvido que entre os modelos que inspiraram os senhores durante sua formação não estivesse gente que combateu a ditadura. Todos os senhores teriam terminado nas mãos de Brilhante Ustra se tivessem tentado fiscalizar o regime militar.

Bolsonaro é inimigo de sangue da democracia, inimigo de ódio ancestral.

Sem a imprensa livre os senhores teriam perdido desde a primeira batalha. O texto célebre de Sergio Moro sobre a operação Mãos Limpas deixa claro que não há como sustentar uma operação dessas sem apoio da imprensa. A imprensa brasileira fez tudo, tudo o que os senhores quiseram. Fez até demais.

Agora que Bolsonaro tenta estrangular a imprensa com o uso seletivo de verbas publicitárias e campanhas de ódio, os senhores se calam? A propósito, Bolsonaro está atacando com especial covardia jornalistas que sempre defenderam a Lava Jato, acusando-os de sempre terem sido petistas, de terem protegido o PT. Os senhores sabem que Bolsonaro mente. Calam-se?

Lamento, mas não há “centro” entre a imprensa livre e o esquema de difamação da família Bolsonaro. O governo de extrema-direita está fechando a janela de transparência em que os senhores viveram seu momento de glória. Não há nenhum bem que a operação tenha produzido que não possa ser facilmente revertido pelo bolsonarismo, que dos senhores só gosta dos erros.

Foi graças às manifestações de junho de 2013 que a lei das delações premiadas foi promulgada pelo governo do PT. As manifestações evitaram que fosse aprovada a PEC 37, que tirava poderes do Ministério Público. Durante os protestos, os manifestantes ocuparam a Praça dos Três Poderes e subiram no teto do Congresso. Sem junho de 2013, não teria havido Lava Jato.

Se junho de 2013 ocorresse sob o governo Bolsonaro, o presidente decretaria GLO com excludente de ilicitude, Paulo Guedes defenderia um novo AI-5, e a garotada na praça dos Três Poderes seria atropelada pelo jipe com o soldado e o cabo de Eduardo Bolsonaro.

Diante de tudo isso os senhores vão se calar, procuradores? No quadro de rápida deterioração em que estamos, um pronunciamento conjunto dos senhores criticando de maneira contundente os ataques de Bolsonaro à democracia poderia fazer diferença.

Resta saber se os senhores têm a coragem, ou o interesse, em defender a democracia que lhes deu tudo que os senhores têm.

domingo, 23 de fevereiro de 2020

Americano morre ao tentar provar que a Terra é plana


LOS ANGELES - Um americano de 64 anos morreu no sábado durante uma tentativa de demonstrar que a Terra é plana.

Michael Hughes morreu na Califórnia na explosão de um foguete que fabricou em casa, segundo informações do "Science Channel".

Hughes "morreu tragicamente durante a tentativa de lançamento do foguete que ele mesmo havia fabricado", afirmou no Twitter a emissora, que pertence ao grupo Discovery Channel. "Nossos pensamentos e orações estão com a família e amigos durante este momento difícil."

Hughes, conhecido como "Mad Mike", havia construído em seu jardim, com a ajuda de um amigo, um foguete movido a vapor. Ele recebeu patrocínio de várias marcas para fabricar a nave. Ele declarou à imprensa que pretendia subir 1.500 metros acima do nível do mar para demonstrar que a Terra não é redonda, e sim que "tem a forma de um disco voador".

Imagens do lançamento, ao qual compareceram muitas testemunhas em uma área de deserto próxima à residência de Hughes, em Barstow, 180 km ao nordeste de Los Angeles, foram divulgadas nas redes sociais.

Nas imagens é possível observar como um paraquedas surge do foguete alguns segundos após a decolagem, então a nave muda imediatamente de rumo e cai algumas centenas de metros adiante.


Jornalista de extrema-direita que finge ser contra Bolsonaro diz que votaria em Trump contra Sanders


O Carnaval do Bozo

Diário, essa época de carnaval é um sofrimento para mim. Eu até sonho com esse negócio.

Hoje, por exemplo, acordei mais cedo por causa do pesadelo que eu tive com um desfile de carnaval.

Pra começar, a Comissão de Frente era formada só por generais. Eles vinham com umas fardas verdes, bonitas, e deixavam pegadas vermelho-sangue.

As Baianas vieram estilizadas de freiras. E a Damares era o destaque da ala. Elas tinham uma coreografia bonita: giravam bem rápido e aí levantavam a saia, mostrando que todas usavam cinto de castidade.

O Ricardo Salles veio em cima de uma imensa árvore carbonizada. E embaixo dele tinha um grupo com lança-chamas que soltava umas labaredas de fogo. Lindo!

Aliás, uma coisa que eu gostei é que não tinha nenhum índio no desfile.

A rainha da bateria era a Regina Duarte, que estava fantasiada de Rainha da Sucata. Ou Secretária, no caso. E os batuqueiros usavam uma roupa de empregada doméstica, mas com umas orelhas de Mickey. O mestre da bateria, claro, era o Paulo Guedes.

A ala “Embaixador Dudu” veio com o Eduardo fantasiado de Estátua da Liberdade. E em volta dele tinha um monte de figurantes dançando. Eles vinham enrolados numa bandeira americana e o adereço de cabeça era um topete loiro gigante.

Depois vinha a ala Irmãos Siameses. Cada folião estava fantasiado de uma metade de laranja. E eles usavam máscaras do Flavinho e do Queiroz. Aí, na coreografia da ala, tinha uma hora que eles se abraçam e formam uma laranja redondinha.

O Olavo de Carvalho vinha de destaque, sambando em cima de um carro alegórico que imitava um mapa-múndi plano.

Carluxo ganhou um carro alegórico só para ele. Era todo dourado e de vez em quando, para imitar o golden shower, soltava uns jatos de purpurina dourada pelo bilau.
O Roberto Alvim vinha na ala “Ser ou não ser nazista, eis a questão?”, onde todo mundo segurava uma caveira. E a fantasia era um uniforme era de soldado nazista, mas com uma suástica verde e amarela.

O Weintraub comandou a ala “Kafta e outros acepipes”, onde cada figurante carregava uma faixa com um erro de português dele. Uma ala imprecionante.

O general Heleno ganhou um carro alegórico especial. Era um tanque puxado por ex-bolsonaristas que ele chicoteava, tipo Alexandre Frota, Joice Hasselman, Witzel, Doria, Lobão, Danilo Gentili, Janaína Paschoal, Kim Kataguiri, Nando Moura e Fágner.

Falando em músicos, os puxadores de samba eram cinco: Roberto Carlos, Magno Malta, Sérgio Reis, Toquinho e Gustavo Lima.

O Edir Macedo e o Silas Malafaia vinham de destaque. As fantasias deles tinham enormes asas de anjo, mas, em vez de penas, eram feitas com notas de cem reais.

Não podia deixar de ter, é claro, a Ala dos Milicianos. Tinha um Adriano da Nóbrega gigante e todo mundo pulou mascarado. Foi a Ala em que o Queiroz desfilou, assim ninguém viu a cara dele.

Olha, Diário, eu te confesso que até aí eu estava gostando do sonho. Mas então apareceu a dupla de mestre-sala e porta-bandeira. Eu e o Moro. Os dois cheios de plumas verdes e amarelas. Já achei isso meio estranho, mas o pior foi que, quando o samba-enredo disse:

“Você fez de mim um presidente,
Eu, um deputado mequetrefe,
por isso vou te dar um presente
Vou te mandar pro STF.”

A gente deu um passo bonito, ficou frente a frente e se beijou. Mas não foi beijinho de parabéns, não. Foi desentupidor de pia mesmo.

Aí que eu acordei todo suado.

Ah, chega logo, quarta-feira de cinzas!

@diariodobolso

O espião da Lituânia


Luis Fernando Verissimo
Todos no bar já estavam cansados de ouvir a história do Josef, mas, de vez em quando, aparecia alguém novo no bar...
Ele se chamava Josef, tinha 80 e poucos anos, e estava sempre pronto a contar sua história. Seus companheiros do bar já estavam cansados de ouvir como os pais do Josef tinham chegado ao Brasil vindos da Lituânia, durante a Segunda Guerra Mundial, e como Josef viera na barriga da sua mãe.

Todos no bar já estavam cansados de ouvir a história do Josef, mas, de vez em quando, aparecia alguém novo no bar, alguém que não conhecia nem Josef nem sua história, e aí era a turma do bar que pedia para Josef contar sua história. Até o ajudavam, temendo que ele se perdesse na narrativa, ou esquecesse algum detalhe importante da história.

– Josef, conte o que seus pais vieram fazer no Brasil.

Josef mudava de voz quando começava a contar sua história. A voz ficava mais solene. Mais grave.

– Meus pais, Ianis e Grupa, vieram ser espiões da Lituânia no Brasil.

– Espiões?!

– Espiões.

– Mas... O que eles espionavam?

– Tudo que acontecia aqui. Nossa política. Nossos costumes. O movimento nos portos. Movimentos suspeitos nas ruas, que aqui chamavam de carnaval. O que os jornais brasileiros diziam da guerra. Tudo que pudesse interessar ao comando militar lituano. Meus pais usavam um transmissor de rádio escondido no porão para mandar seus relatórios. Era perigoso. Um dia...

Josef parou de falar. Aquele “um dia” ficou suspenso no silêncio do bar, até Josef retomar a narrativa, agora com a voz ainda mais grave.

– Um dia bateram na porta. Ficamos assustados. Eu era uma criança. Grupa, minha mãe, procurava um lugar para me esconder. Bateram na porta com mais força. Papai gritou “Quem é?”. Uma voz feminina respondeu “Estamos vendendo rifas para o baile no clube”. Não era a polícia. Papai e mamãe nunca foram descobertos. Espionaram para a Lituânia até morrerem.

– De que lado estava a Lituânia, na guerra?

– Eles nunca ficaram sabendo. Todas as semanas transmitiam seu relatório pelo rádio, e todos os meses, sem falha, entrava um dinheiro, mandado da Lituânia, na conta deles, no banco. Era o dinheiro que pagava nossas contas. Foi o dinheiro que pagou minha educação. É o dinheiro que me sustenta até hoje.

– O quê? Você recebe o dinheiro que vinha da Lituânia para os seus pais?

– Todos os meses, sem falha.

– E não se sente culpado por receber dinheiro sem trabalhar?

– Quem diz que eu não trabalho? Trabalho muito.

– Fazendo o quê?

– Espionando. Todas as semanas mando um relatório do que está acontecendo no Brasil. Quando meus pais morreram perguntei se era para continuar mandando os relatórios e eles disseram para continuar mandando. Que os relatório são publicados com grande sucesso desde os tempos da Segunda Guerra Mundial, apesar de ninguém acreditar que o que eles contam seja verdade. Uma frase que dizem muito é “e a gente pensava que a Lituânia era um país improvável...”.

– E você não inventa o que conta nos seus relatórios?

– E precisa?

Quão triste será que um frevo pode vir a ser?

O cinismo das religiões, que atravessa décadas e séculos, em nada se compara à sombra que pesa hoje sobre os carnavais
Marilene Felinto

Uma das maldições daquela infância era ser de família protestante e não poder brincar no Carnaval. De modo que alimentamos, durante certo tempo, o desejo também equivocado de sermos católicos e, portanto, ao que tudo indicava, de sermos alegres.

Nem Carnaval nem São João. Crianças protestantes não pulavam fogueira de São João nem dançavam no pastoril de Natal. No Carnaval, assistiam de longe, de cima do muro, esticando o pescoço, ao corso que passava na avenida além.

E ainda que, no maldito Carnaval, o frevo-de-bloco que mencionava nosso sobrenome tocasse ao longe, animando o corso (“Felinto, Pedro Salgado, Guilherme, Fenelon, cadê seus blocos famosos?”, da “Evocação”, de Nelson Ferreira, de 1957), não podíamos ir ver, assistir à farra dos foliões.

A rua se dividia claramente entre católicos e protestantes naquele pobre Recife dos anos 1960. Experimentar tristeza ou alegria nas festas do ano tinha relação direta com a religião. Para o lado católico da rua, tudo o que parecia alegria: festejos coloridos, desfiles musicais e dançantes, fantasias, máscaras, confetes e serpentinas —e o frevo, o frevo-canção, o frevo-de-bloco.

Para o lado protestante, (também chamado, então, de “crente” e, hoje, “evangélico”), pesada tristeza, proibição, recolhimento (pela salvação), estoicismo, a Bíblia e sua capa sisuda, de couro preto. Do lado católico da rua, cerimônias cheias de velas e hábitos de padres e freiras, imagens coloridas de santos e santinhos, cruzes, terços, hóstias — toda uma parafernália litúrgica.

Do lado protestante, a imagem do céu azul com nuvens brancas e macias pintada na parede do fundo da igreja. Logo abaixo, a água azulada do lago de batismo — era construção sem enfeites, sem adornos, apenas uma flor aqui e ali. Precisava-se da austeridade na expiação da alma. Devia-se seguir o exemplo de Jó, a perseverança na dor, no flagelo.

Do lado católico da rua, o inacreditável conceito de “purgatório”, que dava um invejável alívio ao pecado, uma segunda chance, uma leveza à religião católica. Do lado protestante, escola dominical, leitura e análise cotidiana do “livro sagrado”, leitura e recitação de salmos decorados em capítulos e versículos.

Do lado católico da rua, a gente melhor de vida, que tinha dinheiro, carro, comida, mulheres maquiadas com batom e rouge —e que era vista como profana, dependente de imagens de santos, de interferência de padres e papas para alimento da suposta fé no Deus.

Do lado protestante, pobreza, escassez, alguma fome, roupas compridas, cabelos longos para as mulheres, ternos surrados para os homens — e eram considerados estranhos os reformadores a caminho do reino dos céus, por demais repressores e algo dissimulados na pedagogia do comportamento que pregavam.

Nós, crianças de família protestante, fomos, no fim das contas, desenvolvendo um antídoto para a tristeza: a raiva das duas religiões. Afinal, quem podia acreditar na mentira do purgatório? Não existia, nunca tinha existido! E ainda que o Carnaval e as outras festas profanas, de santos, fossem atraentes, quem podia acreditar na mentira do confessionário católico? Ninguém. Como também era mentira o sangue do Cristo protestante, que nunca tinha escorrido de fato pelas mãos do pastor que pregava no culto.

De noite, naquele culto dos “crentes”, das igrejas Batista ou Assembleia de Deus, cabeceávamos de sono ao lado de pais e mães, sentados nos bancos duros da igreja. A única hora bonita ali era ver e ouvir a mãe cantar do hinário, voz firme e afinada: “Chuvas de graças! Chuvas pedimos, Senhor! Dá-nos chuvas constantes! Chuvas do Consolador!”. O resto todo da liturgia era odioso, a gritaria dos fiéis evocando o sangue de Jesus Cristo num alarido sem fim, o calor assolando o interior do salão rústico. No culto protestante, “música” recebia o nome de “hino”.

De dia, na escola de freiras católicas onde éramos bolsistas, desrespeitávamos sorrateiramente a missa. Como éramos proibidas de participar por sermos “crentes”, ficávamos fechadas em uma das salas de aula enquanto durasse a reza. Mas, em dias de comunhão, combinávamos com as colegas católicas que roubassem um tanto das tais hóstias consagradas para que também as protestantes pudessem comê-las na hora do recreio —as bolachinhas gostosas, que grudavam no céu da boca—, e todas riam muito alto da façanha, nos esconderijos do pátio de recreio.

Experimentar tristeza ou alegria, em certas épocas do ano tinha a ver com a religião, portanto. Décadas depois, já no exílio de hoje, longe daquelas ruas e avenidas de corsos, o sobrenome nosso ecoa na lembrança do frevo antigo. Mas quão triste um frevo pode ser?

Na voz dos Batutas de São José, a “Evocação” tinha notas de beleza e de lamento ao mesmo tempo. O frevo contava que Recife adormecia, ficava a sonhar, “ao som da triste melodia” dos carnavais antigos. E continuava, em tom de despedida: “Adeus, adeus, minha gente”.

Mas a dura repressão daquela época, o cinismo das religiões que segue atravessando décadas e séculos, em nada se compara à sombra que pesa hoje sobre os destinos dos carnavais (e dos governos do país): a vigilância policialesca sobre os corpos, as sexualidades, o sexo, o pensamento... nada disso se compara à proibição de assistir, como crianças alegres, ao corso de Carnaval. Ali nos rebelamos com raiva das religiões, burlamos ambas.

Hoje, o autoritarismo retrógrado dos evangélicos dá o tom, eles que infestaram as instâncias da política e dos governos, eles que cresceram em número como coelhos nas últimas décadas no Brasil: segundo o IBGE, no ano 2000, representavam 15,4% da população brasileira; já em 2010, chegaram a 22,2% dos brasileiros (de 26,2 milhões para 42,3 milhões). Socorro!

Enquanto isso, os católicos passaram de 73,6% em 2000 para 64,6% em 2010. E continuam em pleno declínio. Novas projeções estimam que, já em 2022, os católicos ocuparão menos de 50% das opções religiosas nacionais, pela primeira vez em 200 anos; e serão ultrapassados pelos evangélicos até 2023.

O Carnaval resiste. Mas o frevo-de-bloco ecoa ainda mais triste, a marchinha, a “marcha-regresso”. Adeus, adeus, minha gente. Cadê a alegria?

Marilene Felinto
Escritora e tradutora, escreve na Folha duas vezes por mês.

A maluquice perversa a que o Brasil está entregue não terminará bem.


Bolsonaro e ministros expandem medidas danosas a sucessivos setores

Janio de Freitas
Uma certeza se pode ter: a maluquice perversa a que o Brasil está entregue não terminará bem.
Nos últimos dias houve outra mudança de tipificação e de grau nas tensões disseminadas por Jair Bolsonaro e sua tropa de choque. As palavras impeachment, queda, saída, providências das instituições, e mais variantes há mais de ano caídas em conformado silêncio, voltaram com força a tema de conversas e mesmo da imprensa. "A democracia é o regime da responsabilidade, o que implica a necessidade de punir a autoridade que se desvia da lei", disse a Folha ("Sob ataque, aos 99") sobre a conduta de Bolsonaro e lembrando-se de sua própria grandeza. Coube à Folha, no passado, dar outros problemáticos passos iniciais.

Aproxima-se uma situação-limite. A inclusão de generais em torno de Bolsonaro tem a ver com a ditadura, claro, mas também com um motivo prático e imediato: formar uma guarda pretoriana, a partir da ideia de que nenhuma instituição ou movimento público confrontaria essa representação do Exército com a tentativa de um impeachment, que também a alcançaria.

Esses generais, como o capitão que os comanda, são todos formados pela ditadura. Bolsonaro, no entanto, aumenta as extravasões da sua condição de alheio aos padrões dados como normalidade mental. Com seus ministros, expande as medidas danosas a sucessivos setores, não se interessa pelo desemprego, agrava os problemas de saúde e educação, submete-se aos exploradores legais e ilegais da riqueza mineral e florestal, ataca o Congresso e o Judiciário, leva o país a reverter tudo o que o fez respeitado nas relações internacionais.

No nível mais pessoal, Bolsonaro não deixará de contrariar a quase unanimidade de apegados ao meio ambiente, refletir as suas posições racistas, homofóbicas, elitistas, pró-violência, e de menosprezo ao corpo feminino. Esse elenco breve de ações do governante improvisado e de conduta pessoal, em permanente agravamento, já seria suficiente para amplificar o cansaço de grande parte do país com sua desordem geral. Há mais, porém.

Os indícios de ligação dos Bolsonaro com milicianos, ou mesmo com milícia, há tempos se mostraram suficientes para justificar providências legais e parlamentares. Aos bastante divulgados, juntam-se agora dois ainda mais incisivos.

O primeiro é a revelação de visitas de Flávio Bolsonaro ao miliciano capitão Adriano da Nóbrega no presídio. Não era, portanto, coisa do foragido Queiroz a relação do miliciano com o gabinete parlamentar de Flávio, onde empregou parentes. A relação era com Flávio Bolsonaro, direta e íntima.

A segunda revelação, feita pelo governador baiano Rui Costa, é a fraude de Flávio Bolsonaro para mostrar-se defensor, com Jair, de apuração rigorosa da morte de Adriano —como faria qualquer desinteressado da queima de arquivo. Flávio Bolsonaro exibiu nas redes um vídeo falso do cadáver, com marcas que seriam de agressão, e com etiqueta do IML da Bahia. Mas Adriano ficou com o ferimento de saída de uma bala nas costas, e o cadáver exibido por Flávio não tem tal perfuração. Nem o vídeo foi feito no IML baiano.

Jair Bolsonaro, é interessante notar, foi o primeiro a quem ocorreu uma ligação das mortes de Adriano da Nóbrega e de Marielle Franco: "Já tomei as providências legais para uma perícia independente [de Adriano]. Sem isso, você não tem como buscar até, quem sabe, quem matou a Marielle". A segunda perícia está feita, e quem vai buscar o que está por trás e por cima dos dois casos? A polícia da Bahia é a matadora de Adriano, a do Rio avançou no caso Marielle e, para indicar o(s) mandante(s), empacou. A Polícia Federal está sob Sergio Moro. E não seria inovadora a montagem de uma farsa para culpar o PT, como Bolsonaro já fez.

A repetida agressão de Bolsonaro às mulheres, bem representadas por Patrícia Campos Mello, teve um efeito na opinião nacional que abalou até bolsonaristas graníticos, com exceção do empresariado graúdo, associado à Bolsa, a Paulo Guedes e daí a Bolsonaro. Somadas a esse efeito as outras produções de Bolsonaro e a contribuição do mais desequilibrado general Augusto Heleno, avançou-se mais. Na obscuridade.

Radicais em causa própria

Greve ilegal no Ceará expõe aliança entre as PMs e o bolsonarismo. Os policiais querem aumento a qualquer custo, e o presidente busca enfraquecer os governos estaduais

Em julho de 2003, um deputado subiu à tribuna com uma ideia incendiária. Queria convencer policiais militares de todo o país a entrarem em greve contra mudanças na Previdência. “Sem a Polícia Militar, senhor presidente, o Brasil vai se transformar num caos”, disse. “Isso tem que ser feito!”, animou-se.

Além de pregar a desobediência à Constituição, o orador incentivou a quebra da hierarquia e da disciplina nas polícias. Sugeriu que as tropas de Minas Gerais e do Distrito Federal ignorassem seus comandantes e cumprissem ordens de políticos da bancada da bala. “Eles têm liderança sobre suas respectivas Polícias Militares e devem realmente partir para uma greve”, afirmou.

A paralisação geral não ocorreu, mas o deputado continuou a apoiar motins ilegais nas polícias. Em fevereiro de 2017, seu grupo se engajou numa greve por aumento de salários no Espírito Santo. O movimento esvaziou as ruas e provocou uma onda de saques e assassinatos. Agora a situação se repete no Ceará, e o parlamentar que estimulava levantes nos quartéis ocupa o gabinete presidencial.

Aliados de Jair Bolsonaro estão à frente do motim iniciado na noite de terça-feira. O deputado Capitão Wagner e o ex-deputado Cabo Sabino atuam como porta-vozes da tropa rebelada. Em Sobral, o vereador bolsonarista Sargento Aílton bateu boca com Cid Gomes antes do atentado contra o senador. O pedetista levou dois tiros ao confrontar os PMs a bordo de uma retroescavadeira.

O presidente e seus três filhos com mandato já criticaram o senador baleado, que continua no hospital. Até aqui, nenhum integrante do clã condenou o motim ilegal, que emparedou o governador petista Camilo Santana.

A politização dos quartéis tem inspirado temores de um efeito dominó. Governadores de outros dez estados estão sob pressão para aumentar salários e benefícios de policiais. Se a situação no Ceará continuar fora de controle, o risco de novas greves tende a se ampliar.

O diretor do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Renato Sérgio de Lima, aponta uma convergência de interesses entre as associações de PMs e o Planalto. As entidades querem arrancar vantagens a qualquer custo, e o bolsonarismo busca enfraquecer os governos estaduais.

“É uma aliança tática. Bolsonaro tenta usar reivindicações legítimas dos policiais para desestabilizar os governadores, em especial os de oposição”, afirma.

As corporações armadas nunca se sentiram tão poderosas. Em 2018, apoiaram a eleição de quatro senadores e 32 deputados com origem nas polícias. Boa parte deles se projetou ao liderar greves. O cearense Capitão Wagner, que apoia a baderna em curso, já havia capitalizado outra paralisação em 2011.

Essa turma vê em Bolsonaro um exemplo a ser seguido. O presidente começou a carreira como um agitador no Exército. Chegou a ser preso por indisciplina e julgado sob acusação de planejar atentados a bomba nos quartéis. Seu objetivo era o mesmo dos PMs: radicalizar para aumentar o próprio salário.

Sua majestade, o vidro

Vai meia dúzia de mascarados quebrar uma vitrine para ver o que acontece
Antonio Prata

Na última quinta, pela manhã, minha amiga sai de casa e da calçada oposta um homem abaixa as calças, mostrando-lhe o pinto. Ela corre até o guarda da esquina. “Moço! Um homem acabou de abaixar as calças pra mim, ali, bem na frente da minha casa!”.

O guarda, sentado em sua cadeira de plástico, a olha com enfado: “Não posso fazer nada, senhora, a rua é pública”. Ela então acrescenta, à guisa de experimento sociológico: “Ele quebrou o vidro do meu carro”. O guarda se levanta num salto, pega o cassetete e fala, com sangue nos olhos: “Onde?! Cadê?! Pra que lado ele foi?!”.

O acontecimento me parece uma dessas histórias talmúdicas ou contos chineses, cheios de significados. Agredir uma mulher, na visão do guarda, é um direito do cidadão. Agora, quando quebra o vidro de um carro é um absurdo que deve ser combatido imediatamente. #mexeucompatrimôniomexeucomtodos!

O “guarda da esquina” é um personagem antigo da política brasileira. Na reunião em que foi proposto o AI-5, o vice-presidente Pedro Aleixo teria dito a Costa e Silva: “O problema deste ato não é o senhor, nem os que com o senhor governam o país, é o guarda da esquina”.

Queria dizer que se do alto vem a mensagem de que dane-se a lei, lá embaixo a turma pode, veja só, entender exatamente o que foi dito e sair barbarizando.

A frase geralmente é citada como uma ponderação razoável, mas me soa reveladora do autoritarismo nacional. Uma coisa é o alto escalão mandar às favas a civilidade, fechar o Congresso, avacalhar com o Estado de Direito. Isso aí tá OK, OK? Agora, o pobre, não.

O pobre tem que obedecer. O fazendeiro que queima a Amazônia é empreendedor. O MTST que invade um prédio abandonado é terrorista.

A atitude do guarda da esquina na história da minha amiga ecoa a de boa parte da elite brasileira nas últimas eleições.

Durante a campanha, Bolsonaro abaixou as calças diante da lei, dos direitos humanos, da Amazônia, da educação, da cultura, das minorias, dos oponentes, mas garantiu que com Paulo Guedes ninguém iria quebrar o vidro do nosso carro. Fiesp, CNI, igrejas evangélicas, Hebraica do RJ, mercado financeiro, agronegócio, parte da toda a imprensa, todos riram, aplaudiram e disseram: vamos nessa!

Bolsonaro segue abaixando as calças, todos os dias, para a democracia, o Estado de Direito, os jornalistas (e principalmente as jornalistas, covarde que é), mostrando a arminha para qualquer noção de civilidade e dignidade, esgarçando o tecido já puído das nossas instituições.

E o primeiro andar continua de olho, exclusivamente, no vidro do carro. Ou, no máximo, suspeitando que Paulo Guedes subiu no telhado, manifestam-se alguns, aqui e ali, supostamente assustados, como se despertassem do sono da mosca tsé-tsé e descobrissem que Bolsonaro segue falando e fazendo o que sempre falou e fez durante a vida toda.

Sabe o que é pior? Se houver manifestações de rua e quebrarem um único vidro de carro, apedrejarem uma agência bancária ou um McDonald’s, os mesmos que o apoiaram nas eleições vão apoiar medidas de exceção que, veja bem, não são um golpe, dirão, mas ações extraordinárias diante de uma situação extraordinária.

A miséria, a falta de saneamento básico, o abismo entre brancos e negros, entre homens e mulheres, a violência policial nas periferias, as milhões de crianças cuja educação está entregue às mãos de um ministro cujo analfabetismo é um dos menores defeitos: nada disso é motivo de escândalo. Mas vai meia dúzia de moleques mascarados quebrar uma vitrine pra ver o que acontece.

Eis o grande patrimônio nacional, nosso maior orgulho, nossa instituição mais sagrada: sua majestade, o vidro.

Antonio Prata
Escritor e roteirista, autor de “Nu, de Botas”.

Nem o golpista de merda Josias de Souza aguenta mais o governo que elegeu


Um dos mais asquerosos pilares do lava-jatismo na imprensa, que passou os últimos anos jogando querosene no ódio contra Lula e água benta na imagem sacrossanta do juiz ladrão, hoje termina sua coluna com a seguinte pérola: "Bolsonaro e seus auxiliares põem em dúvida a própria teoria evolucionista. Mais um pouco e o macaco irromperá no palco para indagar: Valeu a pena?".

Canalha, quem tem que responder essa pergunta é você e seus comparsas, golpistinha de merda.


Governo especializa-se em atirar contra o próprio pé

Josias de Souza

O excesso de polêmicas sob Jair Bolsonaro deixou de ser um problema político ou administrativo. É matemático. O único governo do planeta com 110% de polêmicas. Um governo da guerra, pela guerra e para a guerra.

Nesse contexto, o desabafo de Augusto Heleno contra o Congresso, gravado sem que ele soubesse, é apenas mais um entre tantos tiros disparados pelo presidente e seus auxiliares contra o próprio pé.

O ano de 2020 mal estreou e as autoridades do governo, Bolsonaro à frente, já percorrem a conjuntura vinculadas a conflitos. Nenhuma política pública foi impulsionada pelo surto de animosidade. Ao contrário, o tiroteio atravanca as reformas econômicas.

Bolsonaro ofendeu uma jornalista com insinuações sexuais, comprou briga com 20 governadores, arrastou para dentro do Planalto o cadáver do miliciano Adriano da Nóbrega. Revelou-se capaz de tudo, menos de enviar a reforma administrativa para o Congresso, a única coisa que se esperava dele.

O ministro Paulo Guedes forneceu munição aos adversários com observações desnecessárias sobre parasitas e empregadas domésticas. É nesse contexto que estão inseridas as declarações do general Augusto Heleno.

O disparo do general é apenas mais uma lambança a serviço da perda de tempo. Bolsonaro e seus auxiliares põem em dúvida a própria teoria evolucionista. Mais um pouco e o macaco irromperá no palco para indagar: Valeu a pena?

Última esperança


sábado, 22 de fevereiro de 2020

Chegou!


Tanque atropela patinete


José Roberto de Toledo

A oposição mais eficiente ao governo Bolsonaro é o bolsonarismo. Muito antes dos evangélicos, foram policiais e militares que transformaram o capitão em deputado. Catapultado à Presidência, Bolsonaro assiste agora a esses mesmos policiais e militares acenderem o pavio para implodir a agenda reformista de Paulo Guedes – e, por consequência, ameaçar a aliança da farda com o capital. Como sempre, os farialimers demoraram a se dar conta. Desenhemos, pois.

Os generais resistem à (d)reforma administrativa do ministro da Economia, atrasaram o envio do projeto ao Congresso e motivaram o mimimi de Guedes. Bolsonaro teve que embalar o ministro com um discurso jurando ser fiel “até o último dia”. Promessa de fidelidade de quem demitiu Santos Cruz, Bebianno e Onyx com requintes de crueldade.

Para dificultar o caminho das (d)reformas de Guedes no Congresso, o general de cabelos mais brancos do Planalto disse “foda-se” ao que qualificou de chantagem parlamentar e incitou Bolsonaro a convocar seus seguidores às ruas contra deputados e senadores. Deixou o microfone aberto e foi ouvido do outro lado da praça dos Três Poderes. Confrontado, dobrou a aposta.

A maior ameaça às ilusões dos usuários de patinetes da Faria Lima vem de outro quartel, porém. Os policiais amotinados do Ceará não estão sós. Seus colegas da Paraíba também se insubordinaram. A chantagem se repete contra governadores no Espírito Santo e na  Bahia, entre outros. Em Minas Gerais ela já deu certo: o governador ultraliberal do partido Novo correu a dar um aumento de 42% para os PMs ao primeiro bater de coturno. Nem precisou da carreata de veículos policiais mandando fechar o comércio, como aconteceu na cearense Sobral antes de o senador Cid Gomes lançar uma retroescavadeira contra os portões do quartel amotinado e ser parado a tiros pelos PMs mascarados.

Em Minas, a oposição surfou no fraquejar do governador Romeu Zema e estendeu o aumento a todos os servidores estaduais. Emenda de uma deputada petista foi aprovada por 47 votos na Assembleia, mais do que o dobro do que os parlamentares fieis ao governador novidadeiro. O aumento vai cavar ainda mais fundo o poço do déficit público mineiro. Zema nem sequer pagou o 13º dos funcionários públicos no ano passado. 

O êxito dos policiais em Minas foi o primeiro dominó a cair em uma sequência de motins pré-carnavalescos da PM Brasil afora. Se derrubarem a resistência de outros governadores, os policiais provocarão mais do que uma fissura no discurso reformista de Paulo Guedes. Será a maior demonstração de que a polícia se tornou um Poder autônomo e independente, que não está sujeito aos controles democráticos.

Os patinetes vão encarar tanques, caveirões e retroescavadeiras?

Bico do corvo


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O golden shower do menino Carluxo


 Desfilando na sapucaí da piauí_161, o 'golden shower' do menino Carluxo, por Nadia Khuzina.