domingo, 16 de junho de 2019

No cafofo dos fanáticos

Vinícius Torres Freire faz intro perspicaz ao texto ácido e realista de seu xará Mota.

Fonte

A demissão de Santos Cruz pegou muito mal entre os militares.

A demissão de Joaquim Levy está pegando mal mesmo na turma do gargarejo, povos do mercado e elite econômica que costumam ficar coladas no palco do poder da economia, "dando apoio construtivo às reformas" 😀.

Bolsonaro não vai ficar isolado, mas caminha para ter junto de si apenas a turma do bunker, fanáticos e colaboracionistas de primeira hora.

Queima pontes com qualquer gente mais civilizada e habitante do universo da razão.

O Vinicius Mota descreve o incremento do descrédito de Guedes depois da fritada humilhante de Levy, da qual foi cúmplice: o texto na verdade enumera críticas que correm a boca pequena no andar de cima.


Guedes acelera o bonde do Tigrão

Vinicius Mota

Tigrão está solto. O ministro Paulo Guedes entrou em mais um de seus transes periódicos. Rosnou para a Câmara dos Deputados e acabou de trucidar um chefe do BNDES que já havia sido crivado pela artilharia presidencial.

Tidos como animais astutos, os grandes felinos costumam ser parcimoniosos no emprego de seu poder de destruição. Não este exemplar. Ataca quando tudo parece encaminhado. Investe contra carniça da própria espécie.

Meninos e meninas da Faria Lima vão acordar nesta segunda (17) confusos com o seu ministro de estimação. Talvez comecem, enfim, a negociá-lo no preço justo, como mais um foco de instabilidade num governo repleto deles.

Mas, se observarem bem, verão que o predador não está assim tão provido. As garras e os dentes não metem medo no Congresso, onde o apoio ao governo Bolsonaro se reduz a uma minúscula patota no jardim da infância da política.

Como administrador, mostra-se um bom vendedor de terreno na Lua. Fala em arrecadar R$ 1 trilhão (risos) com privatizações, misturar água e óleo na tributação e implantar um regime extemporâneo de capitalização na Previdência. Menosprezou a Argentina e, meses depois, deu curso à fábula da moeda única com o país vizinho.

Tigrão às vezes não é o dono do pedaço nem sequer na sua pasta. Foi ignorado no episódio em que Bolsonaro deu uma de Maduro e mandou a Petrobras cancelar reajuste. Partiu para cima de Joaquim Levy só depois que o chefe gritou “pega”.

Os percalços da aventura Paulo Guedes não surpreendem os analistas que conheciam a sua personalidade e as dificuldades políticas de implantação de qualquer agenda reformista numa sociedade complexa e democrática como a brasileira.

A redução das expectativas gerais quanto ao “superministro” ajuda a consolidar o cenário em que as lideranças do Congresso conduzem a parte mais importante do jogo, enquanto no Executivo o baile funk não para. Quer dançar?​

A tática do The Intercept no caso Vaza Jato


Leo Martins

Hoje faz uma semana que o @TheInterceptBr publicou as primeiras matérias explosivas sobre as mensagens do moro com a Lava Jato, e tenho pensado muito sobre todo o desenvolvimento dessa história, porém mais focado no formato de divulgação.

Antes melhor deixar claro que sou amigo do @demori e que admiro muito o trabalho que eles estão fazendo há tempos por lá desde a chegada dele, que mudou totalmente o caminho de um site que já estava há algum tempo no Brasil, mas tinha dificuldades de decolar

Também admiro o que eles estão fazendo nesse caso, um dos mais importantes e sensíveis em muito, muito tempo. É preciso não só coragem, firmeza e estrutura para publicar isso, mas também ter um senso de estratégia e inteligência. Essas coisas não costumam andar juntas

E é essa parte de estratégia que me interessa, porque acho que ela simboliza uma mudança radical que já vem acontecendo há tempos: a forma como consumimos tudo. Essa forma é nova num caso tão grande, em que todo mundo espera um episódio como se a realidade fosse uma série

Ao decidir publicar aos poucos e ainda fazer "teasers" de conteúdos bombásticos em programas de rádio, newsletters, entrevistas e pelas redes sociais, o TheInterceptBr adaptou algo bem tradicional (um gigantesco furo jornalístico) ao jeito que a gente se comporta e consome na internet

É como se a equipe toda estivesse focada não só em decodificar tudo aquilo que há nos arquivos das conversas, mas também em não deixar a peteca cair em nenhum momento. Porque eles sabem que as coisas hoje são tão arrebatadoras que mesmo uma história gigantesca pode morrer em dias

E essa nova camada não é tão comum no processo de lidar com um furo. Antes você publicava, cobrava ação por parte do MP e outras figuras públicas, e deixava a história viver o quanto ela aguentasse. Há histórias que sabemos que andam sozinhas, mas muitas outras apenas morrem.

O ciclo de notícias é frenético. Ricardo Salles e Weintraub (até o Neymar!) devem estar comemorando até agora que essa história explodiu, já que eles viraram coadjuvantes por tempo indeterminado. Esse ciclo é vantajoso para vários atores, incluindo boa parte da mídia também

Sabendo disso, o TheInterceptBr está de certa forma atiçando a audiência, deixando claro que vem mais. Não é muito diferente de quando a Netflix solta um teaser para fazer barulho sobre uma série. São uma forma de capturar esse mar de gente empolgada, mas que pode se distrair rapidinho

Pra quem trabalha na área soa meio estranho ver tantos jornalistas do TheInterceptBr discutindo, falando sobre a própria matéria e outras que sequer saíram ainda. Num ambiente mais tradicional, eles publicariam a matéria, fariam uma onda de divulgação e esperariam o resultado

Mas essa é uma história grande demais pra algo tão simples. Publicar tudo de uma vez diluiria e esconderia partes importantíssimas. Dezenas de matérias de uma só vez penetrariam muito menos. Uma divulgação sem contexto facilitaria as negações fajutas do governo

A tática de conta-gotas de algo tão explosivo funciona muito bem para se defender também, já que há muito material ainda não revelado que certamente será usado para rebater declarações de moro e companhia.

O cimento da Lava Jato é o ódio racista da elite e da classe média

Jessé Souza

O que unia Sérgio Malandro Moro, Vaza-jato, imprensa e apoio massivo da classe média branca era o racismo contra negros e pobres! O moralismo hipócrita e postiço, mera cobertura, nem eles levavam a sério. O ódio a Lula sempre foi a "personalização" do ódio ao negro e ao pobre! 

As oligarquias endinheiradas jamais aceitaram que alguém,dos filhos/as da pobreza, chegasse a ser Presidente: Lula. Aceitaram-no sob uma condição: que não mexesse na natureza de sua acumulação.Ele aceitou. Pena. Mas o ódio não esmoreceu, é contra o pobre, o negro e os que vem debaixo.

O energúmeno e os delinquentes


Claudio Guedes

Um presidente desqualificado, racista, incompetente e truculento vai destruindo o país com apoio de aliados que ainda lhe dedicam um tom acrítico, esperando dele receber benesses e reformas contra o mundo do trabalho.

Os mesmos, sempre eles, os hipócritas e corruptos tucanos e pefelistas (hoje na fantasia do DEM) e a mídia hegemônica, capitaneada pela Rede Globo e seus jornalistas calhordas.

Os mesmos, sempre os mesmos, os que criaram, a título da sempre importante luta contra a corrupção - uma chaga no sistema político-empresarial nacional -, os juízes e procuradores celebridades, delinquentes da magistratura e da procuradoria da República, com suas armações ilegais e suas ações corruptas entre amigos.

O herói


U.S.A e A.B.U.S.A.


Delinquência múltipla


A promíscua relação da imprensa e do STJ com a delinquência da dupla Morognol.

Janio de Freitas
A imprensa e a Justiça aceitaram e incensaram as condutas de Moro e Deltan
Nada aconteceu ao acaso nesta etapa fúnebre do nosso fracasso como país. A partir de tal premissa, é preciso dizer que os atos delinquentes de Sergio Moro, Deltan Dallagnol e outros da Lava Jato só puderam multiplicar-se por contarem com o endosso de vozes e atitudes que deveriam eliminá-los. É preciso, pois, distribuir as responsabilidades anexas à delinquência, não pouco delinquentes elas mesmas.

É preciso dizer que a imprensa, incluído o telejornalismo, foi contribuinte decisivo nas ilegalidades encabeçadas por Sergio Moro. Aceitou-as, incensou-o, procurou tornar o menos legíveis e menos audíveis as deformações violadoras da ordem legal e da ética judiciária.

Os episódios de transgressão sucederam-se, ora originários de Moro, ora do ambiente de fanatismo imperante entre os procuradores. Com o cúmulo do desatino e do extemporâneo no espetáculo de Deltan e da psicótica rosácea de acusações ao alvo de sua obsessão.

O site The Intercept Brasil divulgou diálogos que mostram que Sergio Moro (dir) e Deltan Dallagnol (esq) discutiam processos em andamento e comentavam pedidos feitos à Justiça pelo Ministério Público Federal enquanto integravam a força-tarefa da Lava Jato Montagem/Eduardo Anizelli/Folhapress e Agência Brasil


É preciso dizer que as advertências de juristas e advogados de alta reputação, não faltando nem livros de reunião e análise de muitas das transgressões, tiveram mais do que o espaço para o escapismo do “nós publicamos”. Foram vistos muitas vezes como interesseiros políticos ou profissionais. Era, no entanto, o caso de clamor, de defesa aguda dos princípios constitucionais e da legislação, se a imprensa quer afirmar-se democrata, ao menos quando se trata da sua liberdade plena.

A conduta da imprensa tem nomes, não foi anônima nem está encerrada. Nem corrigida: as críticas de um ou outro comentarista não compensaram o rápido esvaziamento das revelações do competente The Intercept Brasil.

É preciso dizer que a mais alta instância de defesa dos direitos civis, da Constituição e do corpo de leis foi coadjuvante nas condutas ilegais de Sergio Moro. O Supremo Tribunal Federal, principalmente pelos ministros Teori Zavascki e Edson Fachin, relatores da Lava Jato, Cármen Lúcia e Luiz Fux, teve o dever de reprimir, cedo, qualquer pilantragem judicial. Preferiu não o fazer, ou por demagógico medo de desagrados externos, ou por sujeição majoritária à ideologia. Poucos ficaram ilesos.

É preciso dizer que o Conselho Nacional de Justiça está necessitado de recuperação judicial. Sua razão de ser é zelar por prestação de Justiça a mais coerente com a legislação, o que implica correção processual, imparcialidade e ética, como explicitadas nos códigos específicos. Apesar disso, nenhum recurso, advertência ou aviso sobre o infrator Moro teve mais consequência do que o arquivamento. Em mais de meia centena de casos, endosso das artimanhas de Moro sem exceção. O papel do CNJ é vizinho do vergonhoso.

É preciso dizer que o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) praticou justiça: deu aos dallagnois o aval que seu equivalente na magistratura deu a Sergio Moro. Esse conselho é o vizinho do vizinho. Mas no Ministério Público não basta a quota de responsabilidade dos procuradores em Curitiba e no CNMP.

A proteção dada pelo então procurador-geral Rodrigo Janot foi a todos os abusos de poder, perversões na invocação de leis, arbitrariedades com as famílias de delatados. Mais de uma vez, Janot divulgou notas de restrição a condutas abusivas. Todas só para enganar a opinião pública, todas descumpridas com o seu amparo.

É indispensável reconhecer que Gilmar Mendes esteve certo nos seus ataques a procedimentos de Sergio Moro e dos procuradores da Lava Jato. Sem subscrever suas pesadas palavras, o sentido do muito que disse, com desprezo de vários colegas, foi verdadeiro. Os que apontaram as condutas transgressoras da Lava Jato foram muito atacados, mas eram os que estavam certos. Está provado, com as vozes dos políticos Sergio Moro e Deltan Dallagnol.

Leia livros
Duas edições recentes e muito apropriadas para estes dias. Do alemão Heinrich Böll, Prêmio Nobel de 1972, o pequeno e original “A Honra Perdida de Katharina Blum” (ed. Carambaia) é, entre outros méritos, uma granada no sensacionalismo dito jornalístico.

“Repórter” (ed. Todavia), de Seymour M. Hersh, um dos raros nomes mundiais do jornalismo, é uma biografia profissional com valioso efeito simultâneo: desnuda o misto de hipocrisia, dominação, guerra, conspiração, assassinato, mentira por trás do que é dito e mostrado ao povo do eixo do mundo. E, portanto, a todo o planeta.


sábado, 15 de junho de 2019

Sérgio e Deltan: eu antes era herói


Sergio Moro já virou piada. Veja a paródia feita pelo programa “Zorra” apresentado há pouco...

Aécio Neves se manifesta sobre a #VazaJato


Nota dos advogados do ex-Presidente Lula

É estarrecedor constatar que o juiz da causa, após auxiliar os procuradores da Lava Jato a construir uma acusação artificial contra Lula, os tenha orientado a desconstruir a atuação da defesa técnica do ex-Presidente e a própria defesa pessoal por ele realizada durante seu interrogatório (10/05/2017). As novas mensagens reveladas ontem (14/06/2019) pelo “The Intercept”, para além de afastar qualquer dúvida de que o ex-juiz Sérgio Moro jamais teve um olhar imparcial em relação a Lula, mostram o patrocínio estatal de uma perseguição pessoal e profissional, respectivamente, ao ex-Presidente e aos advogados por ele constituídos.

É inimaginável dentro de um Estado de Direito que o Estado-juiz e o Estado-acusador se unam em um bloco monolítico para atacar o acusado e seus advogados com o objetivo de impor condenações a pessoa que sabem não ter praticado qualquer crime.

É repugnante, ainda, constatar que a campanha midiática ocorrida em maio de 2017 objetivando atacar a memória de D. Marisa Letícia Lula da Silva tenha sido tramada pela Lava Jato, como também revelam as mensagens do “The Intercept”.

Tais fatos, públicos e notórios, reforçam o que sempre defendemos nos processos e no comunicado encaminhado em julho de 2016 ao Comitê de Direitos Humanos da ONU: Lula é vítima de “lawfare” e o ataque aos seus advogados é uma das táticas utilizadas para essa prática nefasta.

Cristiano Zanin Martins e Valeska Teixeira Zanin Martins (15/06/2019)

Repercussão internacional humilhante sobre Moro: 40 links para ninguém botar defeito

Merval contra Merval, Moro contra Moro.




OPINIÃO

Lavajatogate: juiz das garantias? Uma resposta a Merval Pereira

Por Lenio Luiz Streck e Gilberto Morbach

Na sexta-feira (14/6), em sua coluna no jornal O Globo, Merval Pereira escreveu Juiz das garantias. Em síntese, Merval diz que (i) não há, no Brasil, a figura institucional do juiz de instrução, e que, (ii) nos países onde há, o juiz que participa da investigação não é o mesmo que julga o processo e profere sentença. Dessas premissas, Merval deriva que (iii) não há nada de errado nos diálogos, divulgados pelo Intercept Brasilentre o então juiz Sérgio Moro e o procurador da República Deltan Dallagnol — na medida em que não há juizado de instrução, não haveria problema na hipótese de o juiz do processo, ele próprio, “controlar as investigações”.

De premissas corretas, Merval Pereira consegue derivar uma conclusão absolutamente equivocada que contradiz as próprias premissas. Merval contra Merval. Sua lógica é a seguinte: se (i)temos um sistema acusatório e, portanto, (ii) não temos um juiz responsável pela fase de instrução, o significado daí (arbitrariamente) deduzido pelo articulista é o de que o próprio juiz Sergio Moro poderia muito bem ter exercido esse papel.

É exatamente o contrário. Os diálogos entre Moro e Dallagnol configuram uma violação tão óbvia quanto grave, tão grave quanto óbvia, a tudo aquilo que o próprio Merval Pereira reconhece como verdadeiro. Merval contra Moro.

Dos princípios mais básicos que sustentam um sistema acusatório, Merval extrai exatamente uma contradição grosseira a esses próprios princípios. Não é porque esse tipo de lógica estruturante não prevê a participação de um magistrado específico responsável pela fase de investigações que se segue que o juiz, nos nossos moldes institucionais, possa fazê-lo.

Se não há a figura do juiz de instrução em sistemas acusatórios é exatamente porque, em países de organização não-inquisitorial, juízes não participam da instrução. Ponto.

O sistema penal acusatório, afinal, “estabelece a intransponível separação de funções na persecução criminal”. Isso quer dizer, por óbvio, que “um órgão acusa, outro defende e outro julga. Não admite que o órgão que julgue seja o mesmo que investigue e acuse”. As palavras não são nossas, mas da procuradora-geral da República, Raquel Dodge.

Em qualquer democracia moderna já é — felizmente — platitude dizer que juízes devem ser imparciais. Imaginamos que Merval Pereira concordaria – e pensamos que concorda — com a ideia de que qualquer noção elementar de império da lei pressupõe a isenção daquele que julga. Se isso é verdade, como pode ser então legítimo que um juiz, de jurisdição inserida em um contexto acusatório, atue em conjunto — e fora dos autos — com procuradores, especialmente num país que diz institucionalmente que “não é razoável exigir-se isenção dos procuradores da República”?

E esse é o risco de tornarmos nossos mais básicos princípios meras platitudes: aquilo que temos de mais fundamental é tomado como óbvio, garantido, e acaba perdendo o sentido. Quando as condições de possibilidade de uma democracia liberal tornam-se abstrações e/ou ficções, é possível que se diga qualquer coisa em nome delas.

Vemos isso nos eufemismos e meias-verdades que Merval Pereira escolhe para justificar o injustificável, para conferir um caráter de normalidade ao absurdo.

Merval Pereira diz que “[e]m todas as conversas reveladas pelo hackeamento do celular do procurador Deltan Dallagnol não há um só momento em que se flagre uma combinação entre ele e Moro para prejudicar o ex-presidente Lula ou outro investigado qualquer”.

Diz também que “as conversas entre os dois” — cujos papeis, ainda segundo Merval, sempre foram “bem definidos” — “são sobre o combate à corrupção, e como ela está arraigada na sociedade brasileira”; que “os dois só têm conversas a respeito de procedimentos, e o que parece uma participação indevida do juiz Moro, na verdade é a discussão de decisões sobre as investigações, ou a comunicação de uma testemunha que havia revelado um crime”.

Primeiro, Merval Pereira assume, já de saída, que o vazamento é fruto da ação de hackers. Há algum elemento que sustente a afirmação? O Intercept jamais disse, sequer deu a entender, qualquer coisa nesse sentido. Não parece correto, especialmente em se tratando de um jornalista reconhecido, trazer uma alegação carente de uma única prova que a sustente. Não está à altura das exigências que esse mesmo reconhecimento impõe.

Além disso, fundamentalmente, Merval esquece que Moro não pode ter “estratégia de investigação nenhuma”. Que “quem investiga ou quem decide o que vai fazer ‘e tal’ é o Ministério Público e a Polícia”. Merval esquece que “o juiz é reativo”, e deve “cultivar virtudes passivas”. Quem diz isso não somos nós; são palavras de Sergio Moro, em palestra de março de 2016. Moro contra Moro, Merval contra Moro.

Talvez seja essa uma das razões da defesa. Merval e Moro, afinal, têm algo em comum: o estranho paradoxo de estarem errados a partir dos próprios pressupostos que assumem como corretos. Merval contra Merval, Moro contra Moro.

Ambos, em suas contradições, adotam o discurso do combate à corrupção. Só que esse discurso vem calcado na tese de que os fins justificam os meios — posição criticada com veemência em editorial até pela Revista Veja, que, habitual defensora da pperação, fala em “claras transgressões à lei”. E o cerne da questão é que, articulando-se nessa perspectiva instrumental, dialética e perigosamente, os tais “avanços da Lava Jato” trouxeram consigo um conjunto de ilegalidades que corrompem nos mesmos termos da corrupção contra a qual ela dizia lutar.

Merval Pereira é indulgente com um universo que dizia não tolerar: o do desrespeito às regras e às instituições. O então juiz Sergio Moro reivindicou para si o privilégio que ninguém tem em uma democracia digna do nome: o de estar acima da lei. O discurso do primeiro legitima a frágil ponte que o segundo tenta construir entre a inobservância dos meios e os fins; entre o propósito certo e a ação errada.

Os dois têm, então, cada um à sua maneira, vários acertos. Não temos juízes de instrução. Nosso sistema é acusatório. Os papeis de Sérgio Moro e Deltan Dallagnol sempre foram bem definidos. Juízes devem ser reativos; devem preservar virtudes passivas, e não podem ter nenhuma estratégia de investigação. Quem investiga, afinal, é a Polícia e o Ministério Público.

É exatamente em razão de seus acertos que Merval Pereira e Sérgio Moro erram em todo o resto. As instituições caem quando não respeitam a si próprias, e o jornalismo é traído ao consentir o absurdo, atribuindo àquilo que comenta as virtudes que não tem.

Querendo ajudar, Merval vai exatamente contra Moro.

Lenio Luiz Streck é jurista, professor de Direito Constitucional e pós-doutor em Direito. Sócio do escritório Streck e Trindade Advogados Associados: www.streckadvogados.com.br.

Gilberto Morbach é mestrando em Direito Público pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), bacharel em Direito pela Universidade Feevale, membro do Dasein – Núcleo de Estudos Hermenêuticos e da Associação Brasileira de Direito Processual (ABDPro).

Revista Consultor Jurídico, 15 de junho de 2019

Sergio Moro é um canalha


Luis Felipe Miguel

Quando alguém se torna réu em um processo, muita coisa fica em jogo - a começar pela reputação e pela liberdade.

A vida da pessoa fica nas mãos de outra: o juiz.

O juiz é também um ser humano, com suas fraquezas. Ele tem suas predisposições, seus preconceitos. Vê o mundo, como todos nós, a partir de uma perspectiva social específica e isso interfere em seu julgamento.

Mas, como juiz, seu esforço deve ser no sentido de suspender tudo isso e oferecer o julgamento mais imparcial que ele for capaz de produzir. Nem sempre esse resultado é alcançado - nós bem sabemos como o sistema judiciário é vulnerável ao racismo, ao preconceito de classe, ao sexismo.

Mas cada juiz, no exercício de sua profissão, deve fazer o máximo para ser imparcial diante daqueles que ele vai julgar. É um dever profissional elementar.

Se ele não consegue nenhum controle sobre seus próprios vieses, é um mau juiz. Se nem tenta ou tenta com pouco denodo, é um péssimo juiz.

Mas há um caso muito pior.

É quando um juiz segue o caminho contrário e age de forma deliberada para prejudicar uma das partes, conspirando com a outra, atuando como advogado, abandonando qualquer pretensão de julgamento justo. Assim, ele trai seu dever e se torna completamente indigno da posição que ocupa.

Há um nome para esse tipo de juiz. O nome é “canalha”.

O que está em jogo


Claudio Guedes


As revelações do The Intercept demonstram que Sérgio Moro, enquanto juiz de uma Vara Federal de combate a crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, operou, simultaneamente, como juiz e promotor, violando a lei e fraudando o sistema judicial.

Está provado.

As suspeitas eram fortíssimas e o material já divulgado pelo site de notícias e reportagens confere materialidade aos indícios.

Transformados em heróis no bojo da luta política, sem racionalidade e sem respeito às instituições republicanas, desencadeada no país nos preparativos das eleições gerais de 2014, Sérgio Moro, parcela do TRF-4 e um grupo do MPF do Paraná corromperam a justiça nas suas ações de combate a empresários e os políticos corruptos e/ou suspeitos de corrupção.

Especificamente no caso de maior destaque da operação Lava-Jato, o Estado versus o ex-presidente Lula, as ações comandadas pelo juiz, orientando e dirigindo os passos dos procuradores federais, são ilegais e se constituem numa afronta ao estado de direito brasileiro. Deveriam ter sido revisadas pelos tribunais superiores, que relevaram os indícios do comportamento ilegal e imoral, falharam nas suas obrigações e foram coniventes com os desmandos.

Agora, provadas, não podem continuar relevadas e toleradas.

É muito provável que sejam anuladas pelo STF.

Este, apesar de sua tibieza frente aos desmandos inconstitucionais perpetrados e denunciados, inclusive por membros da própria corte, no bojo dos trabalhos da Lava-Jato, desta vez será colocado frente ao desafio que conferirá ou não legitimidade ao seu precípuo papel institucional: resguardar o estado de direito garantindo a proteção que a Constituição Federal concede a qualquer cidadão brasileiro.

Não se trata de um caso individual, mas da própria defesa da República e da democracia.

Sérgio Moro e alguns outros membros do sistema de justiça que jogaram o jogo sujo, apesar do prestígio que conquistaram junto a expressivas parcelas de brasileiros, e da resistência que tentarão articular em torno da missão que lhes foi atribuída, não poderão sair vitoriosos deste embate.

Com suas imperfeições ou não, a depender do olhar crítico que tenhamos sobre ela, a Constituição da República representa um valor imprescindível ao país. Está acima dos homens, acima das paixões e das vontades dos agentes políticos e do estado distribuídos nos três poderes e no Ministério Público.

Proteger a sua essência, como instrumento formal de defesa do estado de direito, é uma obrigação não apenas do Supremo Tribunal Federal, mas de todos os brasileiros honestos e democratas.

O jogo é entre Sérgio Moro, Deltan Dallagnol & alguns outros procuradores e, provavelmente, alguns desembargadores federais, versus a Constituição da República e o estado de direito no país.

Minha aposta é que os homens são derrotados.

O chilique do general



Assisti à entrevista de Lula na TVT para entender o chilique do General Heleno ao comentá-la. O que o fez surtar daquela forma não foi Lula ter colocado em dúvida a facada que Bolsonaro supostamente levou e que cada vez mais vai ficando claro ter sido uma armação. O que o fez perder as estribeiras foi Lula dizer que militar entreguista não pode ser general e muito menos se submeter a um presidente que bate continência à bandeira dos Estados Unidos. Agora vamos descobrindo que o General Heleno cometeu crimes de guerra no Haiti, recebeu salário ilegalmente acima do teto e ainda foi condenado pelo TCU por contratos fraudulentos milionários. Assim, vai caindo a máscara da mentira que é o bolsonarismo: sua família fala que é honesta mas é envolvida com o crime organizado das milícias; seu ex-juizeco de estimação que diz combater a corrupção é um corrupto manipulador de sentença; e seus militares que se dizem nacionalistas são um bando de lambe botas dos Estados Unidos, vendilhões da pátria.


Traídos pelo desejo


ATORMENTADOS

Sentimentos pessoais, particulares, quase íntimos são revelados por essa Parte 6 da #vazajato do Intercept, divulgada hoje com mais diálogos entre Sergio Moro e os procuradores. 

As entrelinhas dos diálogos, as frases só aparentemente submersas naquelas articulações cerebrais, denunciam que aqueles homens eram e ainda devem ser encantados por Lula.

Instigados pelo juiz, que busca desesperadamente derrotar Lula, os procuradores submissos às suas ordens agem como crianças numa gincana escolar.
Mas com um sentimento que não conseguem esconder, uma admiração apertada no peito pela figura de Lula, o réu especial que eles teriam de subjugar a qualquer custo, não no processo, mas no esquema de propaganda que pretendiam montar com a ajuda da imprensa.

Os diálogos expõem essa tensão ofegante no ambiente da Lava-Jato. Muito mais do que delitos, os vazamentos acabam por expor homens tomados por um encantamento que os sufoca e oprime. É preciso agir rápido e ser mais esperto do que Lula.
Moro e os procuradores acabam por denunciar dentro deles uma aflição que os excita e os mobiliza. Essa agonia é detalhada em cada uma das conversas dessa Parte 6.

Eles precisam derrotar publicamente a inteligência, a astúcia e a força de Lula. Os homens da Lava-Jato foram atormentados pela sedução exercida por Lula e por isso eram consumidos por aquela pulsão que aparece nos diálogos e também por isso sofreram tanto.

O ex-juiz é o que mais sofre até hoje. O sofrimento de Sergio Moro é teatral, rodrigueano, é um dilacerado sofrimento de palco.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Moro se enforca com a própria corda que teceu

Claudio Guedes

Patético

A desculpa de hoje, 14/6, do ex-juiz Sérgio Moro, pego em flagrante delito com sua atuação ilegal e imoral como juiz, é patética.

Diz sua excelência (sic):

“Nós lá na 13ª Vara Federal, pela notoriedade das investigações, nós recebíamos várias dessas por dia. Eu recebi aquela informação e, aí assim, vamos dizer, foi até um descuido meu, apenas passei pelo aplicativo. Mas não tem nenhuma anormalidade nisso. Não havia nem ação penal em curso”.

Como não somos imbecis, sabemos que mesmo se for verdade que a ação penal ainda não estava em curso, o simples fato dele, juiz, ter participado em qualquer momento, mesmo no passado, do futuro processo em favor de uma das partes o impediria de assumir a causa. Mas, no caso, as ações dele em favor da acusação foram muitas, antes e ao longo de todo o processo contra o ex-presidente Lula.

Segundo o Art. 144, CPC/2015, o juiz é impedido de atuar nos seguintes processos (de jurisdição contenciosa ou voluntária):

I – em que interveio como mandatário da parte, oficiou como perito, funcionou como membro do Ministério Público ou prestou depoimento como testemunha.

Moro é meio ignorante, é verdade. Mas leitura é uma ferramenta que ele domina.

O caso do atual ministro está evoluindo do crime ao patético. Como usual em casos que uma celebridade fabricada, mas medíocre e incompetente, se enforca com a própria corda que teceu.

O atropelador de Niterói e os canalhas da Globo


Luis Felipe Miguel

O motorista acelerou contra os manifestantes, atropelou três e fugiu.

O que diz o portal da Rede Globo? "Protesto provoca atropelamentos".

Decidiram estender a todos os crimes a justificativa que dão para os estupradores. É a vítima que "provoca". É a vítima que é culpada.

O fisioterapeuta André Luiz da Cunha Serejo, de 46 anos, que atropelou manifestantes em Niterói, prestou depoimento na tarde desta sexta-feira na 76ªDP (Niterói).

O Globo

Governador Flávio Dino responde a João Escória, aquele da suruba


Governador Doria, na @folha, diz que falta “atitude” aos governadores do Nordeste. Se atitude significa ser subserviente, não é realmente o nosso caso. Nossa atitude tem evitado graves retrocessos, em temas como BPC, aposentadoria rural, capitalização, desconstitucionalização

Claro que respeitamos as “atitudes” do governador de São Paulo. São escolhas ideológicas e ele que responda por elas. Mas certamente ele não tem o direito de reclamar idênticas “atitudes” de quem deseja preservar direitos sociais dos mais pobres.

De minha parte, mantenho a mesma conduta desde sempre: diálogo com todos, mas sem abrir mão de princípios. Princípios estes que são diferentes dos adotados pelo governador Doria. Diferenças normais em um regime democrático, e por isso têm todo meu respeito.

Hacker invade coluna da Folha


Renato Terra

O colunista Renato Terra clicou no link “Enlarge Your Penis” que enviei pelo Telegram e, sem saber, franqueou meu acesso à sua coluna. Saibam todos, pois, que este espaço foi hackeado por mim.

Aviso logo que tenho um anúncio em primeira mão: o hacker anônimo mais famoso do Brasil vai se aposentar. Cabe assinalar, outrossim, que o hacker mais famoso do Brasil sou eu mesmo. O motivo vocês vão saber mais para a frente. Antes, porém, enumero todas as minhas proezas até aqui.

Amigos, a humildade acaba aqui. Sim, fui em quem hackeou Paula Fernandes e Luan Santana. A tradução era diferente, mas consegui acesso à letra e alterei o refrão
para “juntos e shallow now”.

Fui treinado nas mais sofisticadas linguagens de programação. Consegui acesso aos servidores do Fantástico e descobri, enfim, a idade de Glória Maria. Em outro intrincado sistema, desvendei o que realmente aconteceu com Ronaldo Fenômeno na final da Copa de 1998.

Com meu background, elaborei dossiês inéditos sobre a interferência russa nas eleições americanas, as armas de destruição em massa do Iraque, as usinas nucleares da Coreia do Norte e as belezas naturais de Sorocaba.

Fraudei incontáveis urnas eletrônicas nas últimas eleições. Marina Silva teria sido eleita não fosse minha atuação.

Desprendi a língua do Lula, vasculhei o bigode do Maduro e entrei no Teletrim de Gleisi Hoffmann.

Acessei todos os celulares do Rio de Janeiro e não consegui encontrar o aparelho do Queiroz.

Mas, como já disse, este príncipe dos sortilégios que vos escreve vai se aposentar. Pensei ser capaz de devassar todos os sistemas, quebrar qualquer código. Mas não.

Desde o começo do ano tento, em vão, decifrar a intrincada criptografia de Carlos Bolsonaro. Invadir o celular foi moleza, entender o que está escrito é uma tarefa de Sísifo. Não estou preparado.

Nem Alan Turing, em seu auge, seria capaz de quebrar aquelas mensagens.

Estou exausto, mal consigo concatenar as ideias. Praticamente catatônico. Pelo bem da minha saúde, anuncio minha aposentadoria.

Sem mais,
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